7. Bendito desencanto!


“O Reino de Deus é como um grão de mostarda que,
ao ser semeado na terra, é a menor de todas as sementes”
(Mc 4,31).
“Tenho as mãos vazias
de tanto dar sem ter,
porém as mãos são minhas...”
(Manuel Machado)
Quando decidi tomar este caminho maravilhoso de seguir Jesus, tinha grandes ilusões. Sonhava. Tinha a audácia de me imaginar santo, mas numa santidade quase mágica, taumatúrgica, capaz de mudar todo coração que de mim se aproximasse. Com o tempo, com as frustrações, com cada desilusão, aquele espelho foi perdendo o reflexo... Mas eu seguia desejando. Deus tinha tocado meu coração e eu queria dar resposta a tanto amor. Ficar quieto não era opção: sentia a força da juventude me empurrando, me arrastando. Queria coisas grandes, “mudar o mundo”.
Imagino que todos nós temos esse sonho, e cada um lhe dá o nome que quer ou que pode. Mas, desse modo, à medida que não conseguimos ver essa “mudança mundial”, a paz demora demais a encontrar espaço no coração.
Acredito que a raiz do problema se encontre no desejo de ver crescer “nossa árvore de mostarda”. Projetos enormes, soluções práticas e operativas, problemas resolvidos, conversões em massa... viver nas ilusões: “árvores de mostarda”.
Juro que o dia que eu vi a planta de mostarda foi uma decepção. Não há altura, nem galhos, nem madeira!Não tem fruto, só umas florezinhas singelas. Sombra? Pouca... Mas cresce e cresce mais do que outras hortaliças; não tem problemas para crescer. Certamente não era o que eu esperava; era uma total mudança de perspectiva!... Mas, de algum modo, isso me deu alegria e uma paz nova e duradoura. Veio confirmar movimentos internos que supunham que aquele seguimento, às vezes portador mais de desilusões do que de sucessos, era O caminho. Bendito desencanto que nos tira a venda dos olhos!
Tal movimento acontece quando vamos aceitando a nossa pequenez, deixando o semeador jogar a semente, colocá-la onde quer e, sobretudo, vamos aceitando e acolhendo a nossa própria espécie, nossa própria miséria, nossa própria indigência! Essa é a nossa maior riqueza! A nossa paz, a paz de Deus que vai chegando quando nos vamos reconhecendo filhinhos, diminutos, mas diminutos amados, sonhados, abraçados pelo amor obstinado de Deus.
É aí que a solidão, a escuridão, a insegurança, e a certeza de sermos incapazes de mudar o mundo se tornam terra boa, hortaliça humilde e sombra que convida. Nossos olhos vão se abrindo e vemos que não estamos sozinhos, que há mais pés de mostarda crescendo pacientemente ao nosso lado. Assim, só assim, começamos a ser capazes de acolher aqueles que querem fazer ninho à nossa sombra, buscar refrigério na nossa paz, enfaixar suas feridas por nossos afetos. Sem brigar, sem rivalizar, sem virar denúncia vazia de proposta contra estilos diferentes de viver. Sem reter ninguém, dando a possibilidade de voar a quem quiser, quando quiser... Livres. Sem nada, mas com a firmeza e a paz de quem aceita e agradece ser quem é; e poder seguir crescendo, estar a caminho.
É maravilhoso ir percebendo que o Reino pelo qual trabalhamos tem mais a ver com um sorriso do que com uma revolução pandêmica a cada minuto. Uma visita, uma conversa, uns minutos de escuta ou simplesmente chorar abraçado a quem sofre... gestos pequenos que mostram a grandeza do Reino muito mais que atos heroicos, outras “árvores” certamente mais espetaculares que o pobre pezinho de mostarda. O melhor de tudo é que todas essas pequenas delicadezas estão ao nosso alcance! Basta só aproveitar (ou criar) as oportunidades de amar. Essas deixam marcas enormes, feridas de amor, que dificilmente serão apagadas, pois quem é amado assim, na gratuidade, fica com uma dívida, e dificilmente conseguirá prosseguir sua vida sem dar resposta ao apelo do Amor.
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