77. A mesa


“Ardentemente desejei comer convosco”! (Lc 22,14a)
“Mediando entre histórias,
tristezas e risos,
devolvendo intacto
o nosso calor vital”
(Leandro Narduzzo)
A mesa é lugar de comunhão, reconhecimento de si e do outro. Toda vez que penso em meu avô, lembro-me de sua bondade e ternura, mas também de sua perspicácia e picardia. Lembro-me dele à mesa jogando truco com os amigos ou simplesmente partilhando a vida conosco em torno da refeição. Meu avô tem oitenta e cinco anos. Ele é de poucas palavras. Sua rotina diária é constante e persistente, e desfruta especialmente de coisas simplesinhas, como estar com a família, comer bem e jogar baralho. O que poucos conhecem é a perícia, quase espantosa, que tem na hora de uma partida de baralho, sobretudo, no “truco”, um jogo em que você pode mentir e enganar seu oponente. Não desejo a ninguém ter meu avô como adversário numa partida de truco. Ele consegue irritar os contrários com suas trapaças, e ganha sempre; nunca o vi perder nesse jogo. Ora, fora do jogo, ele é um homem cheio de ternura e bondade. Se não conhecesse meu avô mentindo na mesa de jogo, acharia que ele bonzinho demais e até um pouco sonso. Porém, quem sabe da sua picardia o reconhece astuto e esperto.
Não é incomum ouvir por aí a seguinte expressão: “você conhece as pessoas na mesa; vendo-as comer ou jogar”. Eu acrescentaria que você entra em comunhão com os demais comendo com eles, e jogando também. Na mesa, revelamos quem somos. Nossas ansiedades, nosso humor, nossa agressividade ou passividade, enfim, nosso jeito de ser se disponibiliza para os demais nesse espaço plano e liso, no qual também nascem projetos, artes ou se gestam conversas e discussões, perfumadas de café, carinho e entusiasmo.
No evangelho de Mateus, encontramos várias mesas, e seus personagens, às vezes, encontram-se ali sentados. Lembro-me de Levi, primeiro na mesa de cobrar (Mt 9,9) e, depois, na mesa de partilhar sem distinção de convidados (9,10-13). Um critério interessante para nossa vida seria perguntarmo-nos: em qual mesa estou? Cobrando de todo mundo, ou partilhando a vida com todos? Lembro-me também da mesa do puro e do impuro (Mc 7,1ss) onde Jesus nos convida a olhar no nosso interior, para percebermos que nós também podemos cair na hipocrisia. Ele, porém, continua a comer conosco. A nossa fraqueza não nos tira do seu amor. Jesus nos conhece e nos ama na mesa do dia-a-dia.
Mas há uma mesa, dentre todas, que é verdadeiramente escandalosa (Lc 22,14-18). É aquela mesa que se oferece para todos sem necessidade de certidão de pertença ou de fidelidade. Nela, Jesus se senta, cheio de emoção pois se despede de seus amigos, mas mostra-se com o coração em paz por ter feito uma grande obra na vida de seus discípulos. A mesa é escandalosa, não por estar rodeada de cobradores de impostos, pescadores e artesãos, guerrilheiros, nem mesmo porque nela está Judas, sentado junto do Filho de Deus; a mesa é escandalosa porque aí estamos todos nós a fazer comunhão com Jesus, que se senta e come conosco. Mesmo com todas as nossas fraquezas e nossos limites no exercício do amor, Jesus está conosco. Ele deseja ardentemente esse encontro conosco, na mesa do amor, a eucaristia. Nela deve haver espaço para todos, pois é Jesus quem nos congrega sem nenhum merecimento de nossa parte.
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