101. Dentro de casa


“Na casa de meu Pai há muitas moradas.
Não fosse assim, eu vos teria dito.
Vou preparar um lugar para vós” (Jo 14,2)
“Quando o amor te visitar
Quando a ternura, cândida e sorrateira, chegar.
Quando os teus olhos encantados estiverem,
Sem mesmo saberes o porquê,
Dirás: “Entre, sente-se
E não se vá sem um café!”.
Pode ser que, seduzido por teu convite,
O amor sente-se à tua mesa ...”
(Solange do Carmo)
Há poucos dias visitei minha família, como acontece em cada recesso escolar. O reencontro é sempre motivo de festa e de alegria. O nosso coração repousa na calma dos braços familiares e o espírito se refaz para, assim, retornar às tarefas e os afazeres aos quais somos chamados. A terra, a família, os amigos, enfim, as pessoas, os lugares e as situações às quais estamos referidos nos são sempre motivo de gratidão e de celebração.
Nesta visita, particularmente, aconteceu de, no encontro com minhas irmãs, recordarmos situações que nos faziam rir até sentir dor. Havia entre nós uma espécie de linguagem secreta – respostas, refrãos, atitudes corporais e dezenas de coisas malucas e engraçadas – que nos fazia cúmplices uns dos outros diante de nossos pais. É claro que rimos até chorar, da mesma forma que ríamos quando crianças. Os anos e as angústias ruíam ao chão com cada gargalhada. Éramos crianças e adolescentes livres de preocupações e entregues ao jogo de viver alegremente!
Depois de muitas recordações e risadas, ficamos conversando sobre esse nosso código comunicativo, sobre essa espécie de licença que nos dava a conhecer um ao outro revelando nossa loucura mais íntima. Foi aí que minha irmã disse: “Em cada casa há um código; em outras casas, o código é outro e a gente não o entenderia”. Isso foi como uma epifania para mim. Entendi que aquele era o nosso mundo de alegria e de ausência de medos e, em outros lugares, esse mundo talvez exista, porém, de milhares de modos diferentes, não significando nada demais para nós. Cada família, cada grupo de amigos, cada comunidade é um verdadeiro universo secreto de relações, com códigos emocionais e afetivos que só os de dentro entendem. E esses laços são modos que Deus tem de nos libertar de medos e de angústias, de olhares equivocados sobre a vida e sobre o mundo em que vivemos. Nosso Deus é um Deus-família, um Deus de reunião, de amizade; um Deus que sabe gerar espaços que nos dão a conhece a nós mesmos, sem medo de sermos feridos ou julgados. E, quanto mais a gente se conhece, tanto mais a gente cresce no amor.
Enquanto ríamos, nossos pais nos olhavam felizes e pareciam comovidos de ver a gente assim. Eles até riam um pouco conosco. Gosto de acreditar que nosso Deus, Pai-Mãe do céu, também ri e chora junto com a gente, com cada alegria ou sofrimento que vivemos. Ele respeita o jeito de cada um de nós para se nos dar a conhecer. E nos espera numa casa cheia de moradas, onde cada um se possa sentir à vontade para ser o que é.
No céu – falamos aqui de um céu que pode ser vivido hoje e aqui na terra – o espaço para nos deixarmos conhecer, inclusive, desde nossas loucuras, é garantido por Deus. Esse céu é dom de Deus, mas é, também, uma responsabilidade que ele confiou a nós. O Pai só vai ter uma casa cheia de inúmeras moradas, se nós, os filhos, tivermos a coragem de fazer de cada espaço um ventre no qual nos damos a conhecer e permitimos aos demais se darem a conhecer também, sem juízos, sem exclusões, sem ferir ninguém. Só nos dando a conhecer, podemos nos amar como irmãos. Jesus preparou essa casa para cada um de nós. Só olhando para as suas formas de amar, de acolher, de socorrer, de curar, de responder, só olhando para o seu coração doce, manso e obstinado de amor por nós, saberemos como não interferir e como ajudar na construção desse sonho, belíssimo, da casa do Pai. É só colocar nosso coração, do jeito que ele está, no coração de Jesus; é só deixar o Senhor conhecer nosso coração, sem reservas, e lhe permitir nos amar, até com nossas loucuras mais íntimas. Só assim, a transformação virá desde o mais profundo e será verdadeira.
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