8. Que procuras?


“Bendito seja o Senhor, Deus de Israel,
que hoje te enviou ao meu encontro.” (1Sm25,32)
“Que a força do medo
não me impeça de enxergar
aquilo que anseio”
(Osvaldo Montenegro)
Há um encanto incomum nas narrativas bíblicas justamente porque, no texto, para além das hipérboles, há uma lucidez enorme para ver a vida e uma riqueza gigante acerca de alguns de seus dramas.
Chama nossa atenção a relação dos encontros e despedidas, dos desencontros e descobertas. Sob as tramas, há uma tentativa sempre presente do homem de encontrar a si mesmo, o que ama, o que perdeu. É o encontro que move sua esperança, lhe dá alegria, o faz viver. Na dinâmica da busca, está o encontro com o que lhe falta, o que o contesta, o chama...
Ao ler os relatos bíblicos, vemos encontros e desencontros: Samuel e Davi; Rute e Booz; Ló e Abraão; Sara e Agar. Cada uma dessas narrativas faz lembrar o drama humano, que dói e sacia, que afasta e aproxima. Também nossa vida é feita de encontros e desencontros... Mães não dormem, esperando seus filhos voltarem das farras noturnas; apaixonados sonham em receber ao menos um olhar; órfãos anseiam encontrar seus pais... Loucos e sãos, todos querem atenção; a vida não busca senão encontros.
Quem mora na roça sabe bem o valor do encontro, da visita, da acolhida daquele que vem trazendo um pouco de si. Lembro-me das visitas lá em casa, que marcaram a memória da infância. Vinham para um aconchego e ficavam o dia todo; ao fim da tarde, iam levando um pouco de nós e deixando um pouco de si. Por isso, o crepúsculo, para mim, se tornou sinal de despedida; sacramento da partida. A aurora tornou-se encontro. E à noite, depois da generosidade do encontro, a vida exigia memória do dia. E, se a despedida gerou saudade, a esperança do reencontro garantia a paz. Nos movimentos dos luminares, Deus me deu a recordar que a esperança se renova, a vida se refaz.
A despedida é um desequilíbrio muitas vezes necessário. Faz descobrir o que é importante na vida. E é preciso uma profunda experiência de falta para que a saudade surja inquieta, fazendo presente ao coração o que de bom se viveu e não se sentiu. O filho pródigo, estando em casa, estava fora de si; só recobrou a lucidez quando, longe de seu pai, na lavagem dos porcos, perdeu toda a dignidade. Só aí percebeu que sua alegria estava no convívio com o pai.
O maior obstáculo do encontro é o medo. Com o medo, não há encontro. Ele nos protege do risco, mas nos mata na indiferença.Não nos deixa ir ao encontro, enxergar os caídos à beira do caminho. O medo nos impede de seguir decididamente ao encontro do outro para nos aprisionar em garantias pequenas e robustas. No medo, a despedida se torna adeus; a saudade remorso. O medo nos engana, fazendo-nos acreditar que vamos perder algo e impedindo-nos de ganhar tudo.
Diante do medo, só a esperança que não decepciona pode nos curar; só um encontro que nos complete pode nos fazer enxergar a nós mesmos e a não ter vergonha de amar. E o encontro acha seu sentido mais profundo em Cristo. “Neste homem, o homem enfim se descobriu”, como canta um hino Pascal. Sua vitória sobre a morte não significa apenas que o mestre continua vivo, mas que ele veio ao nosso encontro e nos fez ressurgir para a vida; que o encontro sempre vale a pena, porque o amor vence a morte.
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