55. A cultura da suspeita


“Quem de vós dá ao filho uma pedra,
quando ele pede um pão?” (Mt 7, 9)
“Na agonia dessa vida,
Deus, que é meu amigo,
está sempre comigo...
Deus está com a gente
E a vida segue em frente.
Não estamos mais sós!”
(Solange do Carmo e Orione Silva)
Há poucos dias assisti a um vídeo nas redes sociais[1]: Um pai grava seu filho, de quatro ou cinco anos, e lhe propõe um desafio. O menino devia dizer uma frase que acabava com a palavra chocolate e, tendo superada a prova, ele teria direito de brincar com a playstation. O rapaz tinha uma enorme dificuldade para pronunciar essa última palavra e, com grande esforço, apenas conseguia dizer “cocholate”. Seis vezes o pai repetiu o desafio, sem o sucesso do seu filho, que tentou e tentou, e até propôs mudar de “chocolate” para “doce” a fim de poder dar conta do desafio. Como o pai negara essa possibilidade, o menino, chorando, na certeza de já não poder brincar no playstation devido à sua incapacidade, tentou uma última vez, sem conseguir a pronúncia desejada. É claro que o pai deu, de graça, o brinquedo para a ele, que, ainda chorando, tentou mais uma vez.
Não queremos fazer, aqui, avaliações morais ou pedagógicas sobre a conduta do pai. Queremos, simplesmente, colocar nossa atenção na inocente conduta do menino, que aceita sem cálculos o que o pai propõe. Em nenhum momento, passa pela sua cabeça que o pai possa dar um desafio fora das suas possibilidades. Ele aceita, até as últimas consequências, o desafio, quantas vezes lhe é proposto. Ao óbvio interesse pelo brinquedo, soma-se uma certeza: o papai é bom.
Desejo tomar como profética a atitude do garotinho. Porque hoje vivemos na cultura da suspeita. Cada ação é avaliada, calculada; cada pessoa é observada e colocada em dúvida; vivemos na suspeita, no cálculo. Não nos propomos tirar tudo quanto é dúvida da nossa vida; isso seria psicose. Porém, uma coisa é duvidar, permitirmo-nos ter incertezas e outra, muito diferente, viver na suspeita, sem simplicidade, esperando (e tendo) duplas intenções em nossas relações. O menino confia no pai; sabe que não é o pai que o está fazendo chorar, mas o não dar conta da tarefa recebida. Ele se confia e não duvida nem uma só vez, não suspeita; se o papai pede, é para fazer; se o papai prometeu, ele vai dar o brinquedo. Isso nos mostra claramente que a simplicidade e a confiança amorosa estão inscritas em nós, são um traço de Deus em nossa natureza, mas correm o risco de serem apagadas no contato com a cultura da suspeita, que vê em cada pessoa, em cada acontecimento, uma possível ameaça. Muito triste seria se isso acontecesse na nossa caminhada com o Pai. Podemos confiar nele ou suspeitar de sua ação misericordiosa em nossa vida; podemos nos entregar ao seu amor benevolente ou ignorá-lo; podemos renovar a nossa fé e confiar singelamente na imensa e inesgotável bondade do Pai ou agir sempre desconfiando de sua bondade. A escolha é nossa.
Na linha da suspeita, o espírito mesquinho pode afirmar que, quando estamos no deserto (Mc 1,12-13; Mt 4,1-11; Lc 4,1-13), Deus nos dá “uma pedra em lugar de um pão”. Deus seria, pois, nada paternal. Mas, na linha do amor, o Espírito Santo dirá em nós: Tenho dúvidas, Senhor,mas não temo; tu és meu pai bom e não me abandonarás, mesmo na fome e a dor.
Nessa certeza, que se constrói no encontro frequente, amoroso, sincero com o Deus da vida, vai surgindo uma firmeza em nosso coração, que reza: “Fujam as sombras, afaste-se o medo! O nosso Pai é bom e nos ama!”.
[1]https://www.youtube.com/watch?v=ezEeePsC2CI. Visto em setembro de 2015.
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