46. Como em casa


Uma coisa pedi ao Senhor e a procuro:
que eu possa viver na casa do Senhor
todos os dias da minha vida,
para contemplar a bondade do Senhor
e buscar sua orientação no seu templo. (Sl 23, 6)
“Eu quero uma casa no campo,
Onde eu possa ficar do tamanho ideal,
Onde eu possa plantar meus amigos,
meus discos e livros,
E nada mais...”
(Zé Rodrix)
Um belo dia, mais cedo ou mais tarde, defrontamo-nos com a maturidade. Vêm as responsabilidades, mudam-se os tempos, chegam as pressões e também mudam nossos desejos. Quem não teve de fugir da casa da infância por razões de força maior, depara-se com o desejo natural de sair dela. Não podemos nem queremos ter sempre os critérios da casa na qual fomos criados; queremos os nossos próprios. Queremos ter o nosso próprio olhar sobre a realidade, queremos a liberdade de escolher e os nossos próprios espaços. Então, desejamos sair de casa e construir a nossa própria vida.
Porém, seria violento demais esquecermo-nos completamente das nossas origens. E como seria triste! Porque ser adultos não significa apagar a criança e o adolescente que já fomos. Eles continuam em nossa essência, são parte de nós, só que deixam de estar no comando, para deixar o adulto nesse posto. E a nossa casa paterno-materna também continua aí, sendo parte da nossa vida; uma parte muito importante, que diz respeito ao nosso modo de agir, reagir, comer, abraçar, trabalhar, viver, e que nos espera, sempre.
Quanto melhor o exercício da nossa liberdade – aquela liberdade que nos afastou da casa de nossos pais – tanto mais necessário se faz reencontrarmo-nos com aquela casa, que sempre terá as portas abertas para nós. Aquela pode ser a casa onde ensaiamos os primeiros passos, as primeiras respostas, onde dividimos alegrias imensas e enormes dores. Aquela é a casa onde tudo cheira a lar, onde nos afrouxamos com a tranquilidade de quem está no seu próprio âmbito. E aquelas são as pessoas, que incondicionalmente, que nos brindam com segurança e conforto. Diante deles podemos errar, fracassar, chorar, gritar de raiva, na certeza de não perdermos sequer uma gota de seu carinho. Ali é que somos desde a nossa raiz. Ali nascemos e renascemos. Ali, uma boa parte de nós descansa e se recupera das dores da vida; seja na casa material ou na casa-presença, no colo daqueles que nos amam.
Fazer memória das nossas origens é fonte de vigor e renovação da vida, sobretudo quando essa é lida desde a fé, porque nosso Pai do céu nunca fechou as portas para nós, embora, muitas vezes, possamos sentir que estamos longe dele.Estar na casa dele, na sua presença é, para nossa vida, repouso, reconforto, segurança e a licença para tentar ser nós mesmos, sem medo das frustrações. Nele nos refazemos e nos reencontramos para continuar nossa lida do dia-a-dia. É nele, nossa origem e fim, nosso princípio e fundamento, que somos desde a nossa raiz, quer seja apresentando-lhe nossas dores ou contemplando a criação e vivendo na gratidão de sermos parte do milagre da vida. E é, na casa dele, que o encontro definitivo vai se dar com todos nossos irmãos, conhecidos e desconhecidos.
Na fé, sempre somos crianças, mas crianças nunca sós! Estamos sempre na presença do Pai, na sua casa, que também é nossa. A advertência acerca da oração constante à qual se refere o apóstolo Paulo é nada mais que um chamado ao não esquecimento de onde estamos, isto é, no próprio coração do Pai. E fazer memória agradecida disso fará florescer em nós aquela intimidade e aquela confiança filial que transformará nossa vida em um canto de alegria, uma fonte de misericórdia e um refúgio de paz para os demais.
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