45. Pra onde eu vou


“Vivei no temor o tempo
de vossa
permanência como migrantes” (1Pd1,18)
“Minha casa não é minha,
E nem é meu este lugar;
E
stou só e não resisto,
Muito tenho pra falar...”
(Milton Nascimento)
Quase todo mundo já deve ter se sentido um estranho no ninho. Um estranho em sua casa, um estrangeiro em seu corpo, um migrante fora de sua cultura e de sua história. Tem horas que parece que a gente está no lugar errado; brota uma sensação de deslocamento, de não ter espaço para ser... Cresce um desejo de sair correndo, de procurar onde se esconder... Parece que somos peixe fora d’água, ave impedida de voar, bicho selvagem preso em gaiola... É tão frequente essa sensação que corremos o risco de nos acostumarmos a ela. O pássaro livre que vive em nós se acostuma à gaiola; o leão indomado – doido a correr pelas savanas – se acostuma à jaula; inquietos, chegamos a pensar que a vida é assim mesmo e é esse seu fim.
Milton Nascimento cantou com maestria essa experiência. Sua música Travessia parece uma prece, uma súplica de um peregrino, de um estrangeiro à procura de seu lugar, de espaço onde possa se encontrar e deixar sua vida acontecer. Nessas horas, nada como soltar a voz e gritar por socorro, reconhecer que o caminho é de pedras e se está impedido de sonhar... Ou a gente grita ou a gente morre engasgada de angústia, tristeza, incerteza e mal-estar.
A experiência de deslocamento é coisa antiga. No AT, o povo de Deus andou errante, peregrino à procura de um lugar para plantar raízes e se descobrir como nação. No NT, também essa procura continuou. Os cristãos, sabedores de que este mundo não é sua pátria, se tornaram peregrinantes, sempre à procura da pátria definitiva. Assumiram este mundo com tudo que ele tem e é, mas sem a ele pertencer (cf. Jo 17,16), sem criar raízes, sem colocar suas esperanças nele. Os Evangelhos são unânimes ao falar de travessia, de caminho, de jornada a percorrer, de viagem. A Primeira Carta de Pedro é testemunha desta peregrinação a tal ponto de chamar os cristãos de “eleitos que vivem dispersos no mundo” (1Pd 1,1), sem lugar fixo, e de aconselhá-los a viver no temor o tempo de permanência neste mundo como migrantes (cf. 1Pd 1,18).
Para nós cristãos, o mundo é bom, viver é ótimo e a vida reserva prazeres maravilhosos. Mas não temos aqui nossa esperança definitiva; não nos iludimos com este mundo e suas ofertas; não vivemos para ele. Por mais que a gente goste de viver, por mais que a gente valorize a vida e a preserve e lute por ela, caminhamos rumo ao mundo definitivo onde Cristo será tudo em todos. Pois, se para nós, a fé cristã já é devir – algo sempre inacabado e que exige respostas sempre novas – imagina este mundo? Seu inacabamento só nos convence de que a vida é bem mais que isso. Para cada dor que nos desafia, cada decepção que nos estraçalha, cada medo que nos invade, cada incerteza que nos dilacera por dentro, cresce proporcionalmente uma esperança: Estamos a caminho de algo mais.
Enquanto isso, vivamos em paz, mesmo na dor e nos dilaceramentos que a vida impõe. E nos entreguemos intensamente a tudo que a vida nos oferece. Guiados pelo amor, façamos desta estranheza uma companheira de viagem... Ela pode até ser útil. Ela nos obriga ao exercício constante da fé e da esperança. Ela nos arranca de nossos comodismos e nos põe a caminho sempre. Ela atiça o desejo de mais; faz crescer a vontade de algo maior e bem melhor do que o nossos olhos podem alcançar agora. Se amor não nos falta, haveremos de aprender muito nessa jornada que parece interminável. Como cantou Taiguara, lembremo-nos: “E jamais termina meu caminhar; só o amor me ensina onde vou chegar... Amor, por onde for, quero ser seu par”.
De mãos dadas com o amor, caminhemos peregrinantes, rumo à pátria definitiva. Na estrada da vida, melhor não chorar demais. Choro alivia, mas em excesso pesa a alma. Melhor desdenhar o sofrimento e o medo e cantar com Jota Quest, “Ei dor, eu não te escuto mais. Você não me leva a nada. Ei medo, eu não te escuto mais. Você não me leva a nada. E se quer saber pra onde eu vou. Pra onde tenha sol; é pra lá que eu vou”.
Se você também está indo, pode ter certeza, a gente se encontra lá! E vai ser uma festa! Aurevoir! Inté, diriam os mineiros!
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