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18. A poda e a beleza

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24.02.2015 | 4 minutos de leitura
Leandro Narduzzo
Crônicas
18. A poda e a beleza

“Todo ramo que produz fruto, ele o poda,

para que produza mais fruto ainda...” (Jo 15,2b)



“Como é estranha a natureza morta

dos que não têm dor;

Como é estéril a certeza

de quem vive sem amor”

(Cazuza)



A vida me proporcionou conhecer dois verdadeiros artistas, dedicados à arte do bonsai, aquelas belas árvores em miniatura. Por meio de cuidadoso trabalho de plantio, poda e utilização de arames e guias, os cultivadores de bonsai recriam uma cena da natureza num espaço bem reduzido. Quem já se deteve a observar um bonsai deve ter experimentado a grande atração que essas pequenas paisagens exercem sobre nós devido à beleza que lhes é própria.


Certa vez, conversando com esses dois artistas, perguntei-lhes de onde vem tanta beleza e eles me responderam que é a combinação do encanto próprio da natureza, com o trabalho cuidadoso e a paciência quase contemplativa daquele que os cultiva. Notei, então, que o florista trabalha na árvore, mas sem deixar de ter respeito pela natureza da planta que, sozinha, faz seu caminho e vai se dizendo no esplendor de sua beleza. A natureza da árvore vai se expressando, mas isso acontece dentro dos limites que o artista vai lhe colocando ao conduzir seus galhos. De algum modo, a árvore vive em meio às frustrações dos limites impostos, mas ninguém, ao ver aquelas peças de verdadeira arte, se arrisca a dizer que elas carecem de vida, muito pelo contrário, são bem saudáveis. Apreendi, então, que a poda e a condução do crescimento da planta – limites que lhe são colocados – não maltratam a planta, ao contrário incentivam-na a um crescimento ainda mais vigoroso. É só observar:ao podar um galho, brotam dois ou três naquele mesmo lugar.


Tanto a árvore anã – no caso do bonsai – quanto as árvores presentes na natureza em geral nos ajudam a meditar confiadamente a ação amorosa do Pai, que, muitas vezes, também nos induz ao crescimento e à frutificação, utilizando-se da técnica da “poda”. Tais podas são, geralmente, muito duras, ásperas e difíceis de entender, mas trazem consigo novos galhos e prometem abundantes frutos. Momentos chocantes ou tristes, grandes dores, injustiças sofridas, o martírio cotidiano, tudo isso, se for lido pela ótica da fé e da esperança e se uma vez assumido com amor, torna-se porta de acesso para grandes e maravilhosas transformações; caminho certo para dar muitos frutos. Nossa vida se parece com uma árvore, disse Jesus, com uma videira, cujos ramos precisam ser podados e conduzidos. Com certeza, uma vez podada, florirá e gerará galhos belos e cheios de frutos. Sabemos que nenhum de nós está isento de experimentar tristeza ou desânimo, angústia ou decepção, falta de vontade ou de sentido, coisas que fazem mesmo parte da vida. Situações difíceis que enfrentamos todo dia e que podem nos sufocar ou nos provocar o crescimento e a frutificação. A vida é cheia de podas dolorosas, mas, para quem tem fé, cada dor é vivida na presença de Deus que vê nelas um estímulo para crescer. Nesses momentos de dor, não estamos sós. Deus, que não abre mão de nos conduzir e guiar, trabalha dia e noite, sem descanso, pela nossa vida, pela nossa felicidade, pelo nosso crescimento: pela nossa salvação. Ele aproveita – que fique bem claro que ele não as provoca – cada tristeza da vida, cada incerteza que experimentamos, cada dor que carregamos – e que são próprias da caminhada – para nos provocar o crescimento. Ele não as impede, pois para isso teria que nos tirar da história. Então, ele faz o que é possível. Fica ao nossos lado nos incentivando a transformar toda dor, toda perda e toda frustração em um meio para nossa conversão, e essa conversão se torna fértil e atrativa, um oásis para quantos estão sedentos de Deus.


Que as nossas fadigas, dores e feridas não sejam mais do que um convite para sermos pacientes, para avivar a esperança, para renovar a fé e depositar nosso coração no coração manso e humilde de Jesus! Que as nossas caídas nos ajudem a perceber o barro do qual somos feitos e assim, humildemente, possamos nos levantar e seguir em frente! Que as nossas lágrimas sirvam para limpar os nossos olhos e para deixá-los prontos para se fixarem na cruz, de tal modo que sejamos cada dia mais transformados pelo Crucificado−Ressuscitado! Nele reside a verdadeira beleza, a beleza que brota da paciência, da espera, da entrega confiada: a beleza que amadurece e dá frutos na árvore da cruz!





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