37. Um toque que transforma


“Encheu-se de compaixão e,
estendendo a mão sobre ele, o tocou...” (Mc 1,41)
“Audácia de amar...
Coragem de romper...
E de reencontrar as mãos,
e de roçar a pele, e de tocar os lábios...
De, na entrega, encontrar-se...
De, no encontro, realizar-se...
e de, simplesmente, amar,
Pois basta-me que me olhes com doçura!”
(Solange do Carmo e João Jr)
Um pouco de audácia pode ser necessária para romper preconceitos e abrir caminhos preciosos. Apesar de assustar os mais recatados, as velhas pudicas – guardiãs da moral – amar é gesto audacioso; é coisa atrevida que exige presença, carinho, toque, ternura...
O encontro de Jesus com o leproso, relatado pelo evangelista Marcos, mostra a audácia do amor do Mestre de Nazaré. Enquanto todos fogem do doente, Jesus se aproxima, fala com ele e toca-o.
Marcos é insistente acerca do toque. Jesus se aproximou da sogra de Pedro, tomou-a pela mão e a levantou (cf. Mc 1,31). Na casa de Jairo, tomou pela mão a menina morta e devolveu-lhe a vida (cf. Mc 5,41-42). Os doentes suplicavam que pudessem ao menos tocar nele (cf. Mc 6,56). Jesus tocou os ouvidos e a boca do surdo mudo, curando-o de seus males (cf. Mc 7,31-37). Não faltam no Segundo Evangelho textos que mostram a força transformadora do toque de Jesus. Acontece que, para Marcos, o toque de Jesus não é simplesmente um roçar de epidermes, mas um movimento profundo de encontro de almas. Movido por compaixão, o Homem de Nazaré ia ao encontro do sofredor: mãos se encontravam, peles se roçavam, olhares se cruzavam, calores do corpo eram trocados, vidas eram feitas comunhão...
Na correria do dia-a-dia, muitos toques nos escapam. Um abraço do filho; um beijo do amado; um aperto de mão do amigo, um cafuné na cabeça... Precisamos do toque, da troca de energia vital com o outro, cuja intimidade o roçar da epidermes sabe comunicar. O toque cura; devolve a energia vital. Quem nunca se sentiu revigorado depois de um abraço afetuoso? Quem nunca saiu mais animado depois de um beijo carinhoso? Quem nunca sentiu alívio com o toque das mãos da mãe sobre o órgão machucado? Quem nunca se sentiu aliviado de suas dores, depois de uma massagem revigorante? O toque é anestésico... As mulheres que se depilam sabem bem disso: arrancados os cabelos com a cera, vem o alívio imediato com as mãos da depiladora pousadas sobre a pele em chamas...
O povo se assustava com os gestos inusitados de Jesus, tocando as pessoas. E se perguntavam: Como ele toca os leprosos? Não sabe que são impuros? Como pode encostar suas mãos na menina morta? Não liga para as prescrições legais? Como pode abraçar e abençoar as crianças? Não se preocupa se vai se contaminar com a impureza delas? Não! Jesus não se importava com nada disso. Para ele, a proximidade era geradora de comunhão e vida, e não fonte de impureza ou contaminação. Jesus ia ao encontro, tocava... e seu toque curava, sua presença aliviava, seu contato trazia vida nova.
Não tenhamos medo do toque, da proximidade que gera vida. Cuidemos, porém, para que os corpos tenham o abraço, mas as almas tenham o enlace, advertia o grande dramaturgo francês, Victor Hugo. Afinal, “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (Vinícius de Moraes).
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