230. O esperado inesperado


"Disse-lhes Jesus: ‘Vinde, comei’.
Nenhum dos discípulos ousou perguntar-lhe: ‘Quem és tu?’,
pois bem sabiam que era o Senhor."
(Jo 21,12)
“O encontro inesperado,
as situações inusitadas,
o que não foi combinado,
mas tinha que acontecer”
(Rubem Alves)
Coisa boa é reencontrar alguém que amamos! Quando ainda podíamos fazer nossas viagens de férias, pois a ordem agora é se recolher em quarentena para salvar vidas, tive a oportunidade de hospedar-me na casa de um amigo com o qual não me encontrava desde a última vez que estive em minha cidade natal. Já fazia um ano e, durante esse intervalo, poucas foram as vezes que nos falamos.
No reencontro, o abraço acolhedor, o sorriso generoso e a alegria de estarmos juntos anunciavam que tudo permanecia igual, embora estivéssemos distantes geograficamente e percorrendo caminhos existenciais completamente diversos.
Era como se a mesa continuasse posta com toalha nova, café fresco e pão quente à espera da continuidade da conversa deixada inconclusa no último encontro. A amizade, a confiança, o carinho e a reciprocidade foram capazes de transformar o espaço de um ano em um intervalo de tempo semelhante ao de alguém que levanta da mesa para atender a porta e no retorno diz: “Podemos continuar de onde paramos?”.
Ao redor da mesa, a vida se dá com a naturalidade e as exigências que lhes são próprias. Sem cobranças ou questionamentos,entre os amigos só havia espaço para a gratidão. Nos olhos, estava estampada a frase: “Que bom que você está aqui”. A mesa posta, metáfora do encontro, tornou-se sacramento de comunhão e partilha. Nas trocas de experiências, nas dores compartilhadas e nas desilusões reveladas, fui tocado pelo olhar acolhedor do amigo que, mesmo distante fisicamente,sempre esteve vivo em minha memória afetiva.
Saí renovado de sua casa, como também mais consciente de quem sou, de minhas potencialidades e de minhas finitudes. O olhar afetuoso do meu amigo reverberou de tal maneira em mim que provocou mudanças desde dentro do meu coração. Intuo que o mesmo aconteceu com os discípulos de Jesus depois de sua morte e ressurreição. O que fora vivido ao lado do Mestre os marcou de tal maneira que, mesmo na ausência, a lembrança das experiências vividas fazia o mestre presente, mesmo na ausência. Como sabiamente escreveu Solange do Carmo, “a presença do Ressuscitado ressignificou toda a vida dos discípulos. Eles já não eram mais os mesmos”. No seguimento de Jesus de Nazaré, algo novo foi gestado neles. Desde então, não eram mais os mesmos. Assim, depois da morte de Jesus, não dava para voltar atrás e fingir que nada tinha acontecido. Era preciso se deixar impregnar pela força do Ressuscitado, para seguir descobrindo quem realmente eram.
Encontros assim não raros e não podem nos escapar. Precisamos estar abertos para reconhecer a presença transformadora do outro; precisamos distinguir a proximidade física da proximidade reveladora. Nesses tempos de quarentena, temos percebido a falta que esses encontros nos fazem. Resta-nos, pelos meios remotos, manter acesa a chama da amizade. Um telefonema, um bilhete, uma carta, uma mensagem e, de repente, a magia da amizade se revela e, com ela, nosso renascimento interior. Há muitas formas de se fazer presente para além das costumeiras e maravilhosas visitas aos amigos. Elas podem ser menos prazerosas, mas certamente não são menos fecundas. Assentar-se à mesa com alguém amado é mais que estarmos juntos presencialmente. É comungar da mesma dor, da mesma esperança e da mesma luta. E isso independe da distância.
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