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231. Sob as cinzas da impunidade

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05.06.2020 | 10 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
231. Sob as cinzas da impunidade

“Quem não permanecer em mim será lançado fora e secará.

Será lançado ao fogo e queimará” (Jo 15,6)



Não defendo violência alguma,

entendo porque alguma violência acontece.

Não entendo o racismo.

Posso entender a fúria contra o racismo


(Valter Hugo Mãe)



Alguém me disse noutro dia que está cansado de tanta feiura. Realmente feíce pesa, cansa e dá desânimo. Não faltam no Brasil de hoje feiuras horrorosas, desanimadoras. A gente chega a ficar desalentado, pois são muitas. De todas as aberrações a que tenho assistido desfilar nas telas da TV e das redes sociais, salta aos olhos a estupidez. A estupidez estava em desuso. Era brega ser estúpido; tal comportamento era taxado de inculto, impróprio, deselegante, deseducado, de mau tom. De repente, a estupidez – que a gente achava que havia sido assassinada com o golpe da razão – ressurgiu com força colossal. Não percebemos, mas havia ficado um sopro de vida (ou de morte, talvez); restara uma raiz, que, por ter sido menosprezada, cresceu sem a gente notar.


Fui jardineira muito tempo. Venho de família de agricultores e jardineiros. Não é à toa que minha família assina Carmo, de carmelo, de jardim. Um nome bem apropriado para o clã. De raízes minúsculas que ficam sob a terra e são capazes de infectar todo a plantação, eu entendo. Desde criança, nosso pai ensinava a combater a praga da tiririca. Não bastava arrancar as folhas ou até mesmo a batatinha mais superficial. Era preciso cavucar e cavucar e cavucar e cavucar de novo, pois a tiririca possui pequenos nódulos de reserva vegetal até uma distância de mais ou menos um metro de profundidade. Se esquecida no subsolo, ela ressurge com vigor e infecta todo o canteiro, comprometendo a plantação.


O mesmo se dá com a estupidez, com a ignorância, com a crueldade e com suas parentes próximas. Se esquecidas num canto da história, germinam rendendo dividendos de nazifascismo. Trata-se de uma poupança de coisas desprezíveis, uma reserva moral da perversidade. Quando combatida, a estupidez retrai, mas não desiste. Fica acumulando energias para vir à tona com dinamis ainda maior.


É por isso que um país precisa de leis que coíbam qualquer tipo de perversão, pois a estupidez tem uma resiliência implacável. Cada sinal de estupidez, tal como homenagear torturador, dizer que não estupra uma mulher porque ela é feia ou tratar índios, negros e população LGBT como escória da humanidade, é uma semeadura de estupidez que gerará, em futuro próximo, o fanatismo e o obscurantismo no canteiro da convivência social.


Até as pessoas mais inofensivas, quando inoculadas pelo vírus da estupidez, perdem sua inocência e partem para o ataque. É o caso de muitos cristãos, aparentemente paz e amor, que, depois de terem sido infectados pela estupidez alheia, ficaram intoxicados de ódio e preconceito. Realmente, de toda fealdade que tenho observado no tempo que se chama hoje, a mais grotesca se mostra na figura do cristão nazifascista. Uma expressão por si só contraditória, pois Cristo jamais poderia ser associado a movimentos históricos cuja marca é a crueldade e o desprezo pela vida dos indefesos. Mas o fenômeno está posto e resta combater seu crescimento.


Na história do Brasil, vimos muita sujeira sendo jogada para debaixo do tapete, desde a escravidão e a exterminação dos povos indígenas até a tortura e a morte de muitos companheiros que lutaram por liberdade no tempo da ditadura. Com memória curta, fomos passando de um período a outro sem punir crueldades, sem corrigir injustiças históricas e sem legislar as penas para o retorno de velhas perversidades. Depois da ditadura, por exemplo, o país recomeçou seu percurso, numa tímida marcha da democracia, sem punir os torturadores. Os que sofreram tais violências tiveram de suportar a dor e a humilhação de se reencontrar com seus torturadores na esquina do bairro ou tiveram de sofrer o acinte de morar em rua que traz os seus nomes.


O mesmo seja dito sobre o racismo e o preconceito. Quem não sofreu com o cruel assassinato do menino João Pedro, morto por um policial com um tiro nas costas, dentro de casa? Nossos irmãos negros vivem abandonados à própria sorte. Depois da abolição da escravatura, tornaram-se cidadãos de segunda categoria, jogados nas sarjetas sociais, enquanto seus patrões foram indenizados pelo governo. Para que sejam aceitos na sociedade, precisaram branquear a “alma”, ou seja, adquirir costumes europeus e renegar suas origens. Os que assim fizeram receberam o honroso qualificativo de “preto de alma branca”. É o caso do presidente da Fundação Palmares. Triste realidade.


E não são só os negros. Os pobres também são vítimas da impunidade. Subalternizados, foram explorados, maltratados, oprimidos e tolerados unicamente para servir a elite social. Os fatos não nos deixam esquecer o descaso que eles recebem. O elevador de serviço instalado nos condomínios ainda revela como entre nós vale a máxima “cré com cré; lé com lé: um sapato em cada pé”. Quem não chorou nessa semana com a barbárie acontecida em Recife com o filho da empregada do prefeito de Tamandaré, o menino Miguel? São tantos acontecidos horrorosos que só podemos concluir que o mundo se tornou um lugar feio de viver.


Como a humilhação e a perseguição aos pequenos não dá trégua, a gente entende a fúria dos que são pisados. É o caso da morte no negro norte-americano que suscitou diversos saques, explosões de violência e depredação de prédios, delegacias e supermercados. Todo mundo tem um limite de tolerância. A quem são tirados os direitos básicos, não é possível pedir calma e gentileza nas manifestações de repúdio. Desaprovamos a violência, mas entendemos perfeitamente o que a provoca e como se sentem os violentados. Quem sofre a dor não pode mais compactuar com esses desmandos. Já a elite empoderada e branca cataloga toda reação legítima como violência. O abuso está tão legitimado que fica difícil nadar contra a correnteza e perceber as tramas internas dessa sociedade perversa.


A gente entende que a perversão exista e que ganhe força entre alguns que com ela se beneficiam, mas, quando as atitudes de estupidez, como o preconceito, ganham a aprovação de grupos que se intitulam cristãos, aí a cabeça pira, dá um nó e o fio da compreensão não se desembola de jeito nenhum. Jovens e companheiros de caminhada cristã, que sonharam o mesmo projeto do reino e se nutriram da mesma esperança que nós, agora estão do outro lado da história. O Deus amor, manifestado em Cristo, se tornou um ídolo de traços perversos e totalitários. A vida plena prometida em Cristo se tornou direito apenas de alguns privilegiados. A fé cristã, profética por natureza, foi domesticada para servir os grandes. Dos pequeninos prediletos de Deus, passamos à meritocracia que confirma o sucesso dos exploradores. Da caridade fraterna que a todos faz dispensar cuidado, passamos aos “direitos humanos para os humanos direitos”. Da compaixão do samaritano, passamos à indiferença do sacerdote e do levita que não são capazes de chorar com os milhares de mortos da covid-19. Da humildade do publicano pecador, passamos à arrogância do fariseu hipócrita que se vangloria de suas pretensas bondades e se acha dono da verdade. A lista poderia prosseguir. Ela é infinita.


Como entender que cristãos possam compactuar com ideologias tão absurdas e tão perversas? Como entender que um crente se revele um ateu na práxis cristã? Como entender que amigos nossos viraram nazifascistas e ainda persistem nesse caminho, apesar de toda interpelação e argumento? Não quero desculpá-los nem justificar suas escolhas contraditórias com a boa nova do evangelho, mas suspeito que algo se quebrou dentro deles. Foram tantas fake news e tantas inverdades difundidas incansavelmente, que o registro do bom senso ficou corrompido. Trata-se de uma abdução mental, minuciosamente pensada e planejada com requintes de crueldade. Uma vez atravessada a linha vermelha, não é possível mais retornar. Quando já se cruzou a ponte, vê-se que ela se quebrou bem atrás de nós. Para esses, só resta reafirmar o apoio aos malfeitores, pois não é possível tomar o caminho de volta. Penso que acontece um processo mental, como nos quadros mais profundos de depressão. Tendo entrado no estado de depressão, o acometido por tal mal não acha o caminho de volta sozinho. Só se uma pessoa amada o tomar pela mão e o conduzir docemente no processo da cura. Talvez assim ele terá alguma chance de sair do fosso no qual entrou. Para cair nessa cisterna, basta um leve empurrãozinho. Mas para escalá-la até a borda e conseguir superá-la, só se o amor lançar uma escada.


O problema é que a postura resoluta e decidida desses cristãos no caminho neofacista acaba nos desanimando de manter com eles um mínimo convívio. Tornam-se tão insuportáveis que, para nossa sanidade, precisamos nos afastar. É uma questão terapêutica. O isolamento social é um remédio preventivo contra a estupidez, como o é no caso da pandemia da covid-19.


Aí entra o papel das leis. Se a legislação do país trata com tolerância zero esse tipo de comportamento perigoso, a estupidez não se alastra pois é coibida e punida na sua origem. Mas,quando um candidato à presidência da república pesa negros em arroba, diz que índio não vai ter um centímetro de terra, elogia torturador, incentiva atos de vandalismo e de perseguição política, fortalece preconceitos etc. e não tem sua pré-candidatura cassada, então acende um sinal livre para que estupidez passe adiante. Uma vez se tornado presidente pelo voto do povo, fica quase impossível impedir a escala social da estupidez.


Ando sentindo falta do bom senso de Jesus na metáfora da videira. “Todo ramo que não der fruto será cortado e jogado fora no fogo; o que der fruto será podado para dar mais fruto ainda” (Jo 15,2). Nossas leis, tanto civis quando eclesiais, esqueceram que o corte da videira é garantia de muitos frutos. Se a gente vai fazendo vista grossa ou tapando o sol com a peneira, como diziam os antigos, a estupidez se torna árvore frondosa, cujo corte não será mais possível a não ser sob o prejuízo de muitos estragos. Aí o espinheiro passa a governar sobre as outras árvores da floresta.


No campo político, o candidato estúpido se torna presidente e a milícia passou a governar o país. Entende-se por que, em plena pandemia, a ignorância e os interesses próprios continuam sendo os eixos orientadores do governo. Nesse caso, vale o que disse Valter Hugo Mãe sobre o racismo. O “melhor modo de solucionar o problema passa por sermos todos implacáveis com os racistas. Metidos em cárcere. Até que se eduquem as novas gerações para uma inteligência maior”.


No campo eclesial, a desculpa da unidade dos cristãos traz prejuízos para todo o corpo. Sugados por esses ramos inúteis e perversos, o corpo eclesial produz uvas minguadas e sem sabor, quando não produz espinhos. Não é de estranhar que o número de cristãos esteja em queda livre: servimos ao mundo vinagre e não o vinho bom do evangelho, que é o próprio Filho de Deus na carne. Para o bem da fé cristã, inclusive para sua sobrevivência futura, é preciso ter tolerância zero com os intolerantes; é preciso garantir a veia profética da fé. Se mantemos em nossas Igrejas aqueles que difundem o mal, o sal do evangelho já perdeu seu sabor; “melhor ser pisado nas estradas” (Mt 5,13).





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