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159. Invernos e ipês

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21.11.2017 | 4 minutos de leitura
Diego Lelis Cmf
Crônicas
159. Invernos e ipês

"Eis que o inverno passou, cessaram e desapareceram as chuvas.

Apareceram as flores na nossa terra, voltou o tempo das canções.

Em nossas terras, já se ouve a voz dos pássaros" (Ct 2,11-12).



"É preciso ser poeta para perceber
e aprender a poesia de um ipê".


(Salette Granato)



Certa vez, em uma conversa com um amigo, ouvi dele a seguinte partilha: “Devemos prestar mais atenção nas plantas e flores, elas têm muito a nos ensinar”. Entre nossa vida e um jardim, segundo ele, não há muita diferença; basta olharmos com cuidado e nos daremos conta disso.


Confesso que  essa comparação, por alguns dias, povoou meus pensamentos e me serviu de ponto de partida para minhas reflexões, mas, com o tempo, acabei deixando de lado a ideia de olhar demoradamente flores e jardins.


Passou o tempo e depois de uma longa e dolorosa permanência fora do país, no dia da tão sonhada volta para casa, cheguei com o coração desejoso de olhar demoradamente para todas as coisas do meu país.


Com o meu coração cheio de saudade, cada coisa era observada com o mesmo espanto de quem a percebe pela primeira vez. Eu me tornei um menino que redescobria o mundo. Tudo se tornou motivo de alegria; poder ouvir e falar português e, principalmente, poder desfrutar da presença querida daqueles que amo.


Diversas eram as razões para agradecer e tudo exigia um olhar demorado. Depois da acolhida, das boas vindas e de infinitas perguntas sobre como fora a experiência fora do país, finalmente, pela janela, pude contemplar a beleza de um ipê que ainda, em meados de outubro, nos presenteava com a exuberância de suas flores. Tamanha foram a minha alegria e espanto que o cansaço da viagem cedeu lugar à contemplação e à admiração. Mesmo fora época, em condições bastante adversas, como a poluição da grande selva de pedra, floria majestoso o ipê, irrompendo em meio ao asfalto, só para ser fiel à sua vocação de espalhar beleza.


Naquele momento eu me recordei do que há alguns anos havia dito meu amigo sobre a vida e os jardins. Dei-me, então, conta da necessidade de florescer mesmo em tempos difíceis. E, durante dias, entre idas e vindas, lá estava eu observando o ipê amarelo, ora pela janela do meu quarto, ora debaixo de sua sombra. Eu não me cansava de contemplar suas flores, algumas ainda nos galhos e outras bordavam de amarelo o negro asfalto.


A história do povo da bíblia, a literatura e a vida estão repletos de testemunhas de pessoas que floresceram em meio a dores, como ipês que, desafiando todas as regras e rigores dos invernos, revestiram suas vidas com cores e flores.


O Livro de Jó narra a história de um homem que perdeu tudo em sua vida e, mesmo em meio a tantas desventuras, não permitiu que o inverno exterior penetrasse seu coração. Jó permaneceu fiel na sua fé e, com esperança, mostrou que é possível florescer mesmo no inverno.


Cora Coralina, poeta dos nossos dias, marcou sua obra com o selo de quem viveu florescendo no inverno.  A vida de Cora foi marcada pela tristeza. A dor de uma vida difícil e a solidão do desprezo poderiam tê-la paralisado, mas, ao invés disso, as tribulações serviram de inspiração e leveza para sua poesia. Ela nos diz:



Ajuntei todas as pedras

Que vieram sobre mim

Levantei uma escada muito alta

E no alto subi
Teci um tapete floreado

E no sonho me perdi

Uma estrada,

Um leito,
Uma casa,

Um companheiro,

Tudo de pedra

Entre pedras

Cresceu a minha poesia

Minha vida...

Quebrando pedras

E plantando flores

Entre pedras que me esmagavam

Levantei a pedra rude dos meus versos.



Cora, como os ipês, soube florescer em meio aos rigores do inverno, mostrando com leveza, fé e poesia que é possível perseverar, tal qual fez Jó. Mesmo em meio aos invernos da existência humana, é possível abrir-se ao amor e florescer como anúncio primaveril do que há de vir; é possível acreditar que a primavera chegará esplêndida e ali, ainda que vez ou outra a dor insista em aparecer, não haverá espaço para tristeza e choro.


Sejamos fortes como os ipês, que, superando os rigores do inverno, continuam a espalhar vida e cor, fiéis à sua vocação. Deixemos que eles nos recordem que, mesmo em tempos difíceis, é preciso florir. Possibilitemos, desde dentro, num processo de ressurreição, repovoar de cores e alegrias os dias cinzas da vida.









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