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158. De que lado nasce o sol

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14.11.2017 | 4 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
158. De que lado nasce o sol

“Colocarei minha lei em seu coração,

vou gravá-la em seus corações” (Jr 31,33 )



Não preciso que me digam

De que lado nasce o sol,


Porque bate lá meu coração"


(Belquior)



Na cultura oriental antiga, alguns povos entendiam que, para cada pessoa que nasce, nasce também uma estrela que a guia e ilumina seu caminho. Da mesma forma, quando morria alguém, uma estrela se apagava no céu; caía feito meteoro, pois não fazia mais sentido brilhar; já tinha cumprido sua função. Por trás do relato dos Magos do Oriente, parece ter esse pano de fundo. Vendo uma grande estrela no céu, alguns homens sábios – uma espécie de astrônomos e astrólogos – saem à procura do menino que seria o rei dos judeus. Mateus, o evangelista que nos presenteia com essa narrativa, insiste em mostrar que até os gentios, que não compartilhavam a esperança da vinda do messias, sabem seguir os impulsos do coração à procura de Jesus, a luz do mundo.


Enquanto os Magos seguiam a estrela guia, Herodes – perdido na escuridão de sua onipotência e maldade – não via luz nenhuma. E começou a interrogar acerca do nascimento do menino que ameaçava seu reino. Usou todo seu poder e dinheiro na tentativa de obter informações sobre seu inimigo imaginário. Mas nenhuma informação de fora foi capaz de dar a segurança necessária ao soberano. Tal é o desespero de Herodes que mandou matar todos os meninos – certo de eliminar assim o bicho papão que o atormentava. Errou em cheio o governador da Judeia, pois não há fora de nós nenhuma fogueira do conhecimento que possa oferecer luz maior que a pequenina chama que trepida no interior de cada um.


Uma luz interior é coisa que todo mundo deseja. Uma estrela guia lá no íntimo do coração é pérola preciosa que a gente, depois que encontra, não quer mais perder. Belchior cantou lindamente essa realidade: “saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida. Não preciso que me digam de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração”.  


Saber ouvir as batidas do coração e discernir o seu som é dádiva preciosa. Na correria do dia-a-dia, ficamos meio atônitos e perdemos o rumo. Nossa estrela-guia parece ter se apagado antes que nossa vida tenha experimentado seu fim. Uma labilidade existencial nos desnorteia, nos castiga, nos desorienta e, qual Magos do Oriente, procuramos a estrela guia. “Para que lado caminhar?”, nos perguntamos. “Que rumos tomar? Que escolhas fazer? Alguém pode me dizer de que lado nasce o sol?”. São perguntas que, volta e meia, retornam ao nosso coração.


Se em algum tempo essas interrogações foram respondidas pela sociedade, pela família ou pela cultura, hoje não é bem assim. Não temos mais a crença da estrela-guia, mas, mais do que nunca, precisamos de uma bússola interior que nos oriente, que nos mostre o caminho a tomar e nos encoraje a prosseguir. A ausência desse norte causa uma estranha sensação de labirintite existencial, sem saber por qual corredor da vida passar. O mito de Ariadne já nos contou, desde tempos antigos, que só o fio do amor é capaz de nos arrancar das garras do Minotauro e nos ajudar a construir nossa própria história.


A vida tem uma estrutura labiríntica, como o palácio do mito de Ariadne. Suas muitas possibilidades nos desorientam. São múltiplas as decisões que somos cotidianamente obrigados a tomar, e cada uma delas – por mais ingênua que pareça – pode decidir nossos destinos. Nossos caminhos vão se enredando de tal forma que a trama de nossa existência parece não ter mais um fio condutor. Ficamos perdidos feito Joãozinho e Maria na história infantil. Por todo lado, nosso olhar vê caminhos e nenhum deles parece mais seguro ou confiável. Ou o contrário, por todos os lados, a mata da existência nos sufoca e ficamos sem uma picada aberta para começar a procura. Essa experiência não é nada consoladora e faz sofrer.


Se no relato de Mateus, certamente uma metáfora para falar da vida, os Magos viram a estrela; resta-nos a esperança de que ela também nos guie. Não de fora para dentro certamente, mas desde dentro. Alegria é poder cantar como Belquior: “Não preciso que me digam, de que lado nasce o sol, porque bate lá meu coração”. Uma estrela-guia no íntimo de nós é coisa que devemos cultivar. Uma vida com sentido, uma identidade confiável, construída ainda que com pelejas, é certeza de luz nos caminhos. Que ela não se torne cadente jamais, enquanto pulsar nosso coração!





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