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98. Bolsonaro comungou

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14.07.2021 | 3 minutos de leitura
Tânia da Silva Mayer
Diversos
98. Bolsonaro comungou
Nenhuma pessoa deve ser privada da comunhão com o Senhor. O Papa Francisco, na Alegria do Evangelho, retoma o ensinamento que afirma que \"da alegria trazida pelo Senhor ninguém é excluído\". Como se pode ver, a fé cristã não tolera exclusões, porque os braços de Cristo estão sempre abertos para acolher quem acorre à intimidade e a união de vida com o Senhor. Por isso mesmo, Francisco insiste para que ninguém se sinta deixado de lado por esse convite. De fato, a história de Deus com seu povo é marcada pela abertura e proximidade de um Deus que abnega seu status divino para estar cada vez mais próximo das pessoas. Não sem razões, o Deus Jesus é conhecido por estar sempre a caminho da humanidade para se unir a ela e trazê-la para sua convivência.
Mas, não raras vezes, os homens e mulheres da fé se colocam no intermeio entre Deus e seu povo, entre Jesus e as pessoas, de modo a gerenciar a comunhão e a união de vida dessas pessoas com o Senhor. Trata-se de uma organização moralista que estabelece um cem número de critérios que, ao invés de aproximar, cria obstáculos para que uma pessoa acorra ao encontro do Senhor. É nessa esteira que muitos crentes se levantam revestidos por uma falsa santidade e pureza e como se formassem entre si uma sociedade de perfeitos, os únicos aptos a acolher o amor de Deus e participar de suas ações maravilhosas em favor de seu grupo restrito.
Esse tipo de atitude é hoje bastantemente condenado, tanto em âmbitos religiosos quanto seculares. Mas o fato é que sempre nos encontramos com os puristas e moralistas que pretendem enquadrar o mundo em suas categorias vazias de misericórdia. E eles, ainda hoje, insistem em retirar da fila da comunhão quem não se ajusta aos seus critérios. Poderíamos relembrar como isso ocorre, por exemplo, com pessoas divorciadas, recasadas, homossexuais ou outros taxados de pecadores ou considerados viventes de uma vida errante. O que se realiza com relação a uma ação ritual simbólica expressa exatamente o que ocorre na práxis cotidiana da vida de muitas comunidades e agrupamentos de crentes e religiosos: a exclusão de algumas pessoas da fé. Não há dúvidas de que essa realidade não significa e nem realiza a vontade de Deus de estar próximo de toda e qualquer pessoa que o procura ou que por Ele é procurada.
Mas você, leitor ou leitora, deve estar se perguntando o que eu pretendia ao escrever um artigo cujo título retoma um gesto amplamente divulgados em redes sociais nas últimas semanas. No fundo, ninguém deve impedir o maior dos assassinos, caso ele procure o encontro com o Senhor. No entanto, na esteira do evangelho mateano (Cf. Mt 18,15-20), se uma pessoa que se afirma crente erra, ela deve ser corrigida por um ou mais crentes ou pela comunidade de crentes. O perdão é uma máxima, assim como a correção fraterna. O que se pretende não é a instauração de um tribunal de carrascos, mas trazer sempre e uma vez mais o pecador ao seio da comunidade. Mas caso essa pessoa que foi chamada a juízo pela comunidade não tenha escutado e nem tampouco modificado suas posturas, significa que ela se acostumou com o erro e que segue viciada no pecado. Então, ela deve ser banida da comunidade, porque ela própria estabeleceu o ponto de desunião com os irmãos e com o Senhor.
Não poucas vezes, diferentes vozes têm se erguido no seio do cristianismo brasileiro, em diversas Igrejas, advindas de teólogas e teólogos, pastoras e pastores, padres e alguns bispos católicos, rechaçando e chamando à correção de vida e postura o homem que hoje é presidente do Brasil. Embora essas vozes não se calem, é sabido também que Bolsonaro é apadrinhado por líderes de Igrejas Evangélicas e por instituições, padres e bispos católicos, todos subservientes ao poder e ao dinheiro. É dispensável o levante dos nomes, porque uma rápida pesquisa na internet revela quem são os desertores da fé verdadeira em Jesus Cristo.
E é nesse fato que reside a problemática desse artigo: um genocida deliberado, um racista, machista e homofóbico reconhecido, depois de inúmeras admoestações de tantas mulheres e homens de fé, pode continuar recebendo a comunhão das mãos de uma autoridade católica? Novamente, o gesto ritual expressa o que se vivencia na prática da comunidade: essa pessoa pode continuar a se afirmar cristã? As autoridades eclesiásticas brasileiras, se não quiserem colocar a mão no prato e passarem pela história como judas traidores do povo e da vida, devem proceder com a excomunhão desse que se obstinou no pecado e tem impedido diuturnamente nosso povo de voltar a viver e sorrir. Bolsonaro comungou: é escárnio, é perversão, é maldade, é grave. Que providências serão tomadas?

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