97. Retornar é preciso, viver não é preciso
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07.07.2021 | 1 minutos de leitura

Diversos

Passados quase um ano e meio da pandemia por Covid-19 em nosso país, a percepção que temos é a de que estamos todos cansados. Na verdade, o cansaço não define esse momento: estamos nos sentindo exaustos. Não há um só dia que possa ser vivido com leveza, precisamente porque nós nos conhecemos constantemente em ameaça. A existência de um inimigo oculto provoca medo, porque não sabemos exatamente onde está e se nos surpreenderá em algum instante. Mas em nosso país, esse inimigo oculto é apoiado estrategicamente por atores políticos que potencializaram os efeitos catastróficos do vírus ao mesmo tempo em que fomentaram o aparecimento de outros inimigos como o desemprego, a miséria e a fome. Nós \"privilegiados\", aqueles que podem se submeter às medidas de proteção e cuidado da vida nesse momento, é notório, não suportamos há muito tempo o peso da privação da vida social. Basta olhar para trás e mesmo ao nosso lado: o vírus que hoje promove o holocausto dos pobres entrou no país pelos ricos e se disseminou e ganhou força entre a classe média, que não se eximiu de viver a vida à revelia da catástrofe pandêmica.
Logicamente, as generalizações acima são infelizes, justamente porque sabemos que a vida é dinâmica e muitos personagens de todas as classes atuaram e atuam no sentido de prolongar os dias de exaustão. Por isso mesmo, cresce em nosso meio um sentimento esquisito de que é preciso retornar. Retornar para um momento novo, mas com marcas radicais de um momento passado de equilíbrio. Nesse sentido, escutam-se diversos argumentos e reflexões que não hesitam em dizer que a vida deve seguir em frente porque a realidade provocada pela pandemia persistirá por mais algum tempo, sobretudo porque está sendo ajudada por muitas pessoas, inclusive autoridade civis e religiosas, a seguir seu curso de dizimação. Essa ajudinha significa o surgimento de novas variantes e cepas cada vez mais adaptadas, cada vez mais fortes e resistentes, que já não matam mais apenas os idosos, mas todas as pessoas e com maior violência.
Mas esse dado é pouco comovente, tendo observado a realidade do país no mês que passou, percebemos como, abruptamente, temos nos tornado mais resistentes às ideias de autoproteção e cuidado. Além disso, há algo que surge entre nós que é a certeza de que podemos retornar ao momento novo do passado presente, porque já entendemos que as coisas continuarão assim por muito tempo. Trata-se da certeza de que o vírus não nos surpreende mais, e que já sabemos como viver em segurança nas diversas circunstâncias da vida que clamam o retorno: trabalho, escola, almoços familiares, rodas de amigos, compras em lojas, entre outros. Em todo caso, essa firmeza da alma não está de todo enganada, porque sabemos exatamente o que fazer. Mas a certeza pode ser ilusória, primeiro porque o vírus, com o correr dos dias, vai mudando seu comportamento; em segundo lugar, porque já nos sentimos seguros demais, auto suficientes demais para nos rendermos às medidas protetivas como o uso de máscaras e a restrição de circulação, a título de exemplo.
Esse tempo pede o retorno, e o retorno é preciso. Isto é, pululam receitas de uma precisão, tudo é calculado nos mínimos detalhes, tudo esmiuçado em protocolos de segurança para o retorno da convivência social. Mas será que o retorno, nesse momento, é preciso, necessário? Mas, é importante considerar, viver não é preciso. E com relação a essa expressão, podemos entender o seguinte: a vida se dá na contingência, na imprecisão, ela se dá no correr dos dias. Mas, diante da somatória das forças contrárias à vida, podemos nos perguntar pela necessidade de viver. Será que consideramos que é importante, que é necessário viver? Como entender o clamor pelo retorno no momento em que presenciamos quase quatro mil mortes diárias na sequência dos nossos dias? Que valor tem a vida e o viver nesse tempo? A certeza do retorno não é a indiferença e o alheamento da realidade potencializados? Não é a indiferença e o alheamento da vida, porque já cedemos às forças da morte? Essa indiferença e esse alheamento firmam nosso rompimento com a dinâmica pascal de nossas existências?
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