107. Negar a morte é negar a vida
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15.09.2021 | 1 minutos de leitura

Diversos

Muito já falamos sobre esse assunto nos últimos meses. Mas é preciso insistir no fato de que se engana muito quem nega que vivemos um momento dramático na história do mundo. E o drama aqui é senão a própria realidade nua que está escancarada ou penetrada nas brechas do vivido pronta para ser vista por quem olha. Embora muitas pessoas, desconhecidas e conhecidas, estejam demonstrando viver como se absolutamente nada estivesse fora do lugar, como se a vida não estivesse em constante ameaça nesse exato momento, nós sabemos que ela agoniza em qualquer rua do país, leito de hospital ou qualquer quarto de uma casa.
Mas, por algum motivo, nós parecemos ignorar esses fatos. Além disso, existe um movimento de negação dos acontecimentos. A morte nunca foi tão desacreditada como agora. São Francisco que a chamava por irmã ficaria envergonhado com a total frieza com a qual a temos encarado. Mais frios que a morte, negamos sua máxima evidência: \"os caixões estão sendo enterrados com pedras\", foi o que disseram. E não somente disseram, também acreditaram nessa notícia falsa e fantasiosa e a propagaram. Por que? Para negar a morte. Negar sua autêntica evidência: o cadáver. Por essa razão, nada mais legítimo do que negar a causa ou as causas dela. É um exercício lógico dentro de uma compreensão negacionista da realidade: se não há morte, não há causa. Outro dia, desdenhou a vizinha piedosa: \"mas bobo, agora tudo é essa doença. Agora todo mundo só morre disso. Ninguém morre com mais nada\".
Posturas negacionistas sempre foram prejudiciais à humanidade. Não é que se pleiteie a unanimidade, não se trata disso. Discordar e diferir são atitudes saudáveis e ampliam pontos de vistas. Mas o negacionismo é o total cerramento dos olhos diante da realidade. E quando isso acontece, já não há mais nada com o que concordar ou refutar. Trata-se de uma supressão do real e a crença de que ele não existe. Poderíamos sugerir que essa postura se dá por adesão à uma fantasia, mas estaríamos sendo imediatistas? O negacionismo parece interagir diretamente com o sistema de crenças de uma pessoa e, consequentemente, com o modo como ela se posiciona e se relaciona na vida. Mas, cabe ponderar, há diferentes graus de negacionismo, vão do mais radical ao menos radical. É negacionista não somente quem se posiciona objetivamente contrário aos acontecimentos, mas também quem se faz, ainda que momentaneamente, indiferente a esses mesmos acontecimentos.
Mas quando o assunto é a vida, há enormes prejuízos sempre por causa de posturas negacionistas. Com relação à morte, negá-la é negar também que a vida é uma \"matéria fina\", frágil e que pode sucumbir a qualquer momento. E, nesse aspecto, negar o tempo presente que é tão ameaçador à existência é assumir uma postura de indiferença quanto a própria vida. É destituí-la da sua dignidade inalienável. É torná-la mercadoria, que pode ser usada e logo descartada. Por isso é que nos sentimos mal nesse momento histórico que vivemos. Porque já é tão banal morrer que é tão banal viver. O mal-estar se dá precisamente porque não sabemos o que fazer com a vida, a nossa e a coletiva.
Uma maneira de superar esse movimento negacionista da morte e, portanto, da vida, é permitir o luto. Os olhos que choram não se envergonham. É preciso querer a lágrima. Não apenas pelos nossos próximos quando se vão, mas também pelos que se vão sem despedidas e em números e histórias. O versículo mais curto da Bíblia cristã anuncia: \"Jesus chorou\" (Jo 11,35). E só porque chorou pode se confrontar novamente com a vida. Aprender a viver a dor, a perda, o luto é um exercício para os nossos dias. Que o tempo nos dê tempo para aprender que a fuga da dor pode ser exatamente a fuga da própria cura.
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