103. Tropeçou no Evangelho!
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18.08.2021 | 1 minutos de leitura

Diversos

Uma frase atribuída a São Vicente de Paulo traduz, sem delongas, toda a práxis de Jesus Cristo e seu ensinamento às pessoas que o seguem ao longo das épocas: "dez vezes irão aos pobres, dez vezes irão a Deus". O que sabemos sobre Jesus é o que diferentes pessoas nos testemunharam pela história, sobretudo a partir do que as primeiras comunidades seguidoras registraram. Nesse sentido, nenhuma pessoa, crente ou não, pode afirmar que os pobres não estavam no horizonte de preferência de Jesus no anúncio do Reino e da vida nova que essa realidade proporciona. Inclusive, uma leitura descompromissada de exegese e hermenêutica bíblicas já indicará o quão a vida de Jesus estava convertida aos menores do Reino. Logicamente, a partir de uma leitura crítica, mais ainda se compreenderá como os pobres definem a atuação de Jesus e como são centrais no Reino de Deus.
Se observarmos apenas o capítulo 25 do evangelho de Mateus, vemos a descrição de uma práxis discipular, a ser vivenciada por todas as pessoas que seguem a Jesus Cristo. Por um lado, a narrativa alarga a dimensão do olhar para as pessoas que devem receber atenção e cuidados, graças à situação de vulnerabilidade na qual se encontram – famintos, sedentos, enfermos, presos, maltrapilhos, migrantes etc. –. A partir desse trecho, podemos considerar que há muitas pessoas a serem incluídas no grupo dos "pobres". No fundo, esse grupo é constituído por todas as pessoas cuja vida se encontra ameaçada, e não apenas o órfão, a viúva, os pobres e estrangeiros, como já propõe a ética bíblica do Antigo Testamento. Assim, como o evangelho não é estático, mas está sempre sendo lido no confronto com a vida real, quais outras pessoas em nossa sociedade integraram esse grupo?
Ainda tomando por base o trecho desse capítulo mateano, devemos entender que a práxis aí descrita –"Eu tive fome e me deste de comer… tudo que fizestes a um desses pequeninos foi a mim que o fizeste…" – vai além de um conjunto de ações executadas para o gosto individual ou coletivo dos fiéis ou frequentadores de igrejas cristãs. Trata-se de uma práxis decisiva para o ser cristão. E isso significa que ela é determinante para nossa mais profunda e radical adesão ao Reino de Deus. Nessa perspectiva, é sinal da conformação das nossas vidas às bem-aventuranças, ao projeto de vida abundante e plena que Deus deseja para todos as pessoas, sem distinções. É também critério para nossa participação no Reino. Deve consistir no esforço cotidiano de quem se coloca disponível para seguir Jesus, ontem e hoje.
Como se pode ver, não basta apenas agarrar-se em crucifixos para dizer-se um cristão ou cristã de verdade. Essa realidade na vida de uma pessoa dá-se à medida que é capaz de se desprender de seus egoísmos e se converter aos outros no processo de conversão a Deus, tal como vivenciado pelo próprio Jesus Cristo. Por isso, atualmente, vemos o descompasso entre uma "fé" de crucifixos e outra fé que se desloca às periferias para o encontro com os pobres e marginalizados – encontro com o próprio Senhor, diga-se de passagem. Quando o evangelho sai da bíblia e se torna práxis junto aos pobres – na doação do alimento ou da roupa, na visita dos aprisionados, na acolhida dos refugiados, no cuidado dos enfermos e doentes, no acolhimento dos vulneráveis etc. – ele se revela como loucura para quem ainda não deu os primeiros passos em direção ao Reino e suas exigências ou resolveu seguir por outro caminho. Por isso, muita gente tropeça no Evangelho, ele que é pedra no meio do caminho de quem não acorre aos pobres e tampouco acorre a Deus.
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