83. Cirineu e cirineus


(Ao frei João Júnior por ocasião de sua ordenação presbiteral)
“Pegaram um certo Simão de Cirene
e mandaram-no carregar a cruz atrás de Jesus” (Lc 23,26)
Carrega meu coração
o peso livre do amor e da amizade,
porque no amor não há tristeza.
(Paulo Gabriel)
Coisa comum é o sofrimento! Está sempre a comover a gente, suscitando em nós o que de mais humano temos em nós mesmos, guardado no íntimo de nossos corações. Basta uma cena de dor para nos comover ou uma cena de sofrimento para nos emocionar. No dia-a-dia não faltam cenas que se descortinam debaixo de nossas janelas ou expostas nos noticiários das TVs, nos jornais impressos, nas páginas de internet. É o soldado chorando as dores do menino morto na beira da praia, símbolo dos refugiados da Síria,ou as famílias desesperadas chorando seus mortos soterrados por terremotos e tsunamis.
A religião cristã, cuja base é o chão da vida, também não faz questão de esconder o sofrimento e a dor. No Antigo Testamento, Jó chora, lamenta, range os dentes; Elias e Jeremias pedem a morte, e o Servo Sofredor, do Segundo Isaías, padece de dor. No Novo Testamento, Jesus – o novo Servo Sofredor – assume a dor do mundo. “Ele assumiu as nossas dores” (Is 53,4 citado por Mt 8,17). E, com ele, todo aquele que crê não se desvia das vicissitudes da vida, nem as nega: assume-as com coragem, na força do Espírito, segundo o testemunho do Nazareno. A fé se vê perpassada por dores cortantes, testemunhos de sofrimentos e angústias dilacerantes, que nos interpelam a prosseguir decididamente.
Na prática piedosa da Igreja, as cenas de dor são frequentes e seguem nos comovendo. Que cristão nunca derramou uma lágrima ao ver as encenações da Semana Santa? Que católico não se derreteu em prantos ao presenciar o choro lancinante de Maria que, aos pés da cruz, lamenta a perda do filho de suas entranhas? Até os mais durões costumam se emocionar nessas horas; o choro fica preso no peito da gente ou uma lágrima atrevida escorre dos olhos sem pedir permissão. E nem precisa ser uma encenação. Basta olhar algumas imagens ou estampas, tão perfeitas, tão sofridas, para despertar em nós um sentimento de compaixão enorme e um desejo de arrancar aquela dor com as próprias mãos.
Na cidade onde nasci, reverencia-se a cruz de Jesus, celebrada no dia 14 de setembro. Na sacristia da igreja, uma imagem do Senhor dos Passos, o Nazareno carregando a cruz, com vestes roxas, rosto ferido, sangue escorrendo pelas faces... Desde pequena, incomodava-me a cena: o Homem-Deus pedindo socorro. Com uma mão, o condenado apoia a cruz sobre os ombros; a outra pende estendida sobre os joelhos caídos, entreaberta, onde eu depositava a minha mãozinha no desejo de não maistirá-lade lá... Os cravos da coroa de espinhos, penetrados na testa em carne viva, clamava por minhas mãos pequeninas, mas faltava-me, como canta Fagner, uma escada para tirar os cravos de Jesus (Disse uma voz popular ‘Quem me empresta uma escada pra subir ao altar, pra tirar os cravos de Jesus, o nazareno?’”). Ali naquela imagem, Deus se mostrava tão frágil, tão sofrido, tão indefeso, pedindo socorro. Eu queria ajudá-lo a carregar sua cruz, mas não sabia como fazê-lo, então ficava ali somente olhando para ele, pensando: “Meu Deus, ninguém fez nada? Nem uma única mão estendida?”. Eu não conhecia os relatos dos Evangelhos. Foi só bem depois, quando já me tornei jovenzinha, que conheci as Escrituras Sagradas e descobri que, em meio a tanta maldade e dor no caminho do calvário,havia um gesto de solidariedade: um homem ajudou Jesus a carregar sua cruz.
Faz pensar a cena do Cirineu. Um homem desconhecido, que chega cansado de seu trabalho, ajuda o Salvador a levar a termo a salvação de um mundo cansado de amar. E não importam as circunstâncias, se o Cirineu foi obrigado a fazê-lo, se o fez de bom coração... Importa que, tendo-o feito, sua atitude de partilhar a cruz será para sempre lembrada. Pois, uma vez partilhado o fardo do madeiro, nunca mais ele será o mesmo. Trará sempre a leveza de mãos fraternas que se aproximaram e, na obrigação imposta pela contingência da vida, souberam aliviar o cansaço, restabelecer a crença no outro, restituir a esperança de dias melhores.
Não foi isso que fez Teresa de Calcutá quando assumiu as dores dos agonizantes da Índia? E o que fez Dulce com os sofredores da Bahia? O que fez Francisco de Assis quando beijou e acolheu o pobre leproso que encontrou em seu caminho? Não foi cirineu de sua gente Oscar Romero quando lutou pelos direitos dos sofredores da América Latina? O que dizer de Pedro Casaldáliga morando numa tapera e rejeitando todo privilégio para se igualar aos pobres do Araguaia? O que falar de tantas mães e pais que carregam as cruzes de seus filhos deficientes, sofridos, doentes? Marias, Joanas, Pedros, Josés, Antônios... Um mundo anônimo de santos cirineus que aliviam os fardos de seus companheiros, familiares, amigos e até de desconhecidos. Tomam emprestada a escada da coragem, sobem o altar da existência e tiram os pregos de Jesus crucificado na pessoa do irmão sofredor. São cirineus que seguem aliviando a dor do outro.
E não foi isso mesmo que Jesus fez durante toda sua vida? Não socorreu todos aqueles que a vida, nos seus limites, trouxe até ele? Não desceu ele as escadarias dos porões da vida e tirou os cravos da existência humana, fazendo-se solidário com cada sofredor?Fez-se Cirineu de cada um que o conheceu, e também nosso que carregamos hoje o peso da existência. No fundo, a cena do Cirineu nos ensina: Não é o Cirineu quem acompanha Jesus e lhe estende a força de seus braços cansados. É Deus mesmo que, “em familiar fraternidade e pessoal intimidade, acompanha paciente os passos humanos, encorajando-os desde dentro”, como disse João Júnior no seu convite de ordenação presbiteral (cf. contra-capa). Se hoje, de alguma solidariedade somos capazes, já é pura retribuição a tamanha bondade do Nazareno, que se abaixou e carregou nossa cruz. Sua generosidade nos faz generosos. Sua misericórdia nos faz misericordiosos. Sua presença nos motiva a carregar a cruz do outro, a torná-la leve, a fazê-la pelo menos suportável... Sigamos, pois, na certeza. O Cirineu está conosco e nos faz cirineus de cada sofredor. Eis a nossa vocação cristã.
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