74. Talvez


“Maldito é o homem que confia no homem” (Jr 17, 5)
“Seja como os pássaros que,
ao pousarem um instante
sobre ramos muito leves,
sentem-nos ceder,
mas cantam!
Eles sabem que possuem asas”.
(Victor Hugo)
Tenho escutado esse versículo bíblico com frequência. Nasce do desalento e da decepção, da queixa e do ressentimento honesto de gente com quem convivo. E preciso confessar: a tentação de acolher esse versículo, tal como está escrito, é muito grande. Sei que citado assim, irresponsavelmente arrancado de seu contexto, um versículo que dá a pensar como esse, pode ser um verdadeiro veneno; uma crença extremamente negativa e pessimista em relação à vida.
A tentação segue contundente. Depois de duas guerras... Depois dos absolutismos e totalitarismos... Vendo homens religiosos embrenhados numa violência sem fim, que pensam ser autorizada por Deus... Ligando a televisão ou numa rápida olhadela em algumas páginas da internet... Lendo os comentários “extremamente educados” de anônimos ou nomeados abaixo de matérias, textos, nas redes sociais... Notando a delicadeza das pessoas no convívio social... Sabendo de pais que matam filhos, filhos que matam pais, namorados que assassinam as parceiras ou vice-versa, de crianças que têm que pedir socorro, de idosos que são abusados... Fica difícil confiar no ser humano.
Não é preciso ir longe, contudo. O namorado ou o cônjuge que trai a esposa destruindo a cristalina confiança... O amigo que dessacraliza a lealdade... A indiferença ao invés do cuidado prometido... As promessas quebradas... A desilusão depois do encanto alimentado por outrem... Quem não imaginávamos ou supúnhamos, de repente, nos apunhala pelas costas... (Até tu, Brutus?). Quem dizia nos amar, sem mais, dá provas cabais do oposto... Os incólumes, ilibados, irrepreensíveis deixam cair as máscaras... Os homens do sagrado acenam muito mais para o sombrio e para o tenebroso... Os descaminhos e os desesperos se assomam e a falta de sentido vira apanágio de cultura e intelectualismo. Difícil crer no ser humano, realmente. Parece um projeto falido.
Onde vemos aquilo que chamamos “l’airdutemps” melhor do que nas artes? Repare na cinematografia: nunca se viu tantos filmes de zumbis... Nunca tantas distopias, especialmente juvenis. Mundos inóspitos, gente comendo umas as outras – a bestialização de tudo... Notem as músicas: louvor à bebida como solução para os dissabores; “zona, pinga e foguete” contra a solidão e o tédio das horas; ressentimentos gritados contra os desamores (ou amores mal-resolvidos);emburrecimento e “alegria alcoólica”. Chamar-me-ão de moralista. Acusar-me-ão de mal-humorado. Nada de julgamentos aqui, entretanto, só uma constatação: estamos desbaratados. Difícil crer em nós mesmos.
Há pouco tempo escutei uma palestra na faculdade. Falava sobre patologias. Fiquei esperando o comunicador enumerar sua lista de esquizofrenias, sociopatias, transtornos. Pasmem, entretanto, com a análise do sujeito. Tento remontá-la. A cessação da sensibilidade é fruto, segundo ele, da exposição constante ao terror a que somos obrigados todos os dias. O horror é esvaziado de reflexão em filmes, na banalização do mal promovida pelas mídias – e não estou demonizando nenhuma delas. Daí que, diante do sofrimento pungente e que exige socorro imediato, os abutres-humanos se contentam em sacar o próprio celular e gravar o sofrimento alheio em vez de estender a mão, prestar socorro... Estamos sendo preparados para a morte de qualquer um, de modo que perder já não é mais significativo, numa sociedade de “substituições”, bem à maneira do que fazemos com nossos objetos quando caem em desuso ou estragam. A conclusão: a patologia moderna é nossa desumanização excessiva. Fica pior: sem o auxílio das grandes narrativas, sem o poder salvífico das palavras que ajudaram a manter as culturas vivas diante do mal e sua ciranda, fica impossível apelar para o coração humano. Fabulações, fantasias, encantamentos tolos, ingenuidade, ausência de razão, negação da ciência: é nisso que se converteram as grandes narrativas. Haverá saída?
Lembro-me de um antigo diretor espiritual. Homem profundamente versado nas Escrituras e nas humanidades. Também ele, certa feita, parecia incentivar certa desconfiança. Dizia: “a muitos, confiar pouco; a poucos, confiar muito; mas tudo, somente a Deus”. Dúvida metódica? Desconfiança seletiva? Tomei aquilo como verdade, porque assim parece: é preciso certo “faro” e muita sabedoria para confiar. Mas, definitivamente, é impossível vida ou relação humana sem confiança. E não será suficiente nenhuma exigência preestabelecida, nenhum “vademecum” anterior, pois a confiança será sempre um risco, uma aposta. Sempre uma “fiança” sem certeza de devoluções. Testada na vida, lançada entre simpatias e antipatias, provada na alegria dos instantes e na tristeza das horas, assim é que acabamos por descobrir para quem podemos abrir o coração e descortinar a alma. É aí que ainda se encontra a ética, mesmo na dissolução de toda palavra e narrativa: em receber o outro como liberdade, como condição de relacionamento.
Hannah Arendt dizia, nalgum lugar, que todos os nossos atos podem ter desdobramentos trágicos. Cada um deles – uma palavra ou um gesto, uma crispada de lábios, um asco aleatório, um olhar torto (a dramaticidade é minha!) – pode causar o mal a alguém. O que permite que a vida não se torne um inferno e o que autoriza a confiança nas relações? A promessa de não fazer o mal e o perdão. Dá o que pensar...
O versículo de Jeremias, por sua vez, de maneira alguma incentiva desconfiar da humanidade. O versículo critica certamente, isso sim, a autossuficiência, esse fechamento absurdo a Deus, o Totalmente Outro. Colocar as esperanças nas forças humanas, no braço humano e sua força. É a grande tentação de todos os tempos; essa absolutização de ídolos, de poderes, de forças, contra o único absoluto – o único capaz de nos manter livres. Se utilizarmos o versículo, entretanto, para nos fecharmos a toda relação de confiança, não estaremos caindo justamente – e paradoxalmente – no que o Espírito manda para além da letra: não fechar-se a Deus? E como Deus se apresenta a nós? Na face do outro... No outro... Seria um fechar-se, enfim,ao Deus que acredita no homem(cf. 1Jo 4,20). Crer ainda na humanidade; representá-la, sobretudo: eis o que creio ser também o significado de quem coloca a confiança no Senhor. No Senhor que confia na humanidade. É mania do amor, afinal, lançar fora o medo e a desconfiança que a tudo vai minando, sinuosamente (cf. 1Jo 4,18).
Honestamente, não defendo nenhuma confiança estúpida. Estou ainda com aquela frase do meu diretor espiritual. Tem muita gente descuidada por aí... Muita gente irresponsável, com as próprias palavras e com o coração dos outros. O mal se encontra banalizado e o amor cristão não pode, de maneira alguma, transformar-se em ingenuidade. Mas Deus nos livre do medo asseverado, do desespero estendido a todas as relações! Deus nos livre de não nos entregarmos ao amor ou às amizades! Um louvor aqui, portanto, à amizade: tesouro da alma, enternecimento do coração, amparo nas dores, oásis no deserto, aragem na aflição, rugido para a surdez, água mole na pedra dura da insensibilidade, treinamento do respeito. O mesmo serve para o amor, somado dos abraços e beijos, das carícias, do exercício da aceitação das diferenças, dos gozos – dentre eles o do sexo – do olhar eloquente. Por que não falar da família também, do sangue-do-nosso-sangue, esses amigos não-escolhidos, primeiro terreno onde fomos semeados, escola da liberdade, educandário da diversidade em todas as suas múltiplas apresentações?
Está tudo destruído, bradarão os pessimistas (ou realistas!). Está tudo em crise, dirão os analistas de conjuntura. Otimismo é tolice, sustentarão os mais sãos... Talvez... Não sou profeta de más notícias. Estou aqui para falar do que o homem está chamado a ser, daquilo que realiza o sentido mesmo de humanidade, algo profetizado há muito por Deus, quando fez a aventura humana. Aquele talvez, que serve para dissuadir e desanimar, ao contrário, me enche de esperança... Provados no crisol de todas as crises, que haverá de surgir?
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