73. Ouço


“Ouve, Israel..." (Dt 6,4)
“Ouço tua voz,
Como ao bramido de uma lâmina.
E tuas palavras doces
Falam de coisas que sinto e escondo
Mesmo de mim"
(Eduardo Calil)
A vida anda agitada e bem barulhenta. Não raras vezes, estamos compenetrados em algum trabalho importante quando somos roubados de nossa concentração por causa da poluição sonora que reina em nossas cidades grandes: “Pamonha, pamonha quentinha, senhora!’, grita o homem da Kombi. E o outro em seu caminhão: “Abacaxi, abacaxi de Marataízes, docinho como mel. É o abacaxi de Marataízes!”. E quem nunca foi arrancado de seu descanso ou do exercício do pensar pelo funk desesperado de algum boyzinho dono das ruas, que acha que toda a cidade está obrigada ao mesmo gosto musical de sua excentricidade? Nossas cidades andam barulhentas demais. Trovejam canções ensurdecedoras em boates, casas de shows... Nas igrejas, esquecemos da sátira contada no livro dos Reis acerca de Elias e os profetas de Baal (cf. 1Rs 18), e gritamos como se Deus fosse surdo. Fazemos exatamente o que o autor sagrado criticou no Baalismo, religião dos cananeus: um culto exótico e agitado que parecia querer acordar seu deus, a fim de ganhar suas benesses. Até nas lojas, consultórios de médicos e dentistas, lugares antes silenciosos, lá está um barulho de fundo livrando-nos do incômodo silêncio que nossas almas agitadas não sabem mais apreciar. Perdemos a capacidade de silenciar. E mais, muito mais: perdemos a capacidade de ouvir.
Engraçado, mas – para ouvir –,apesar de precisarmos das palavras e dos sons, precisamos de silêncio. Sem silêncio não é possível ouvir, não é possível distinguir os sons e seus significados. Tudo se torna uma barulheira medonha, amorfa, sem potencial comunicador. Talvez, por isso, andamos à procura de lugares silenciosos que nos ajudem a recuperar o “santo graal”, aquele tesouro escondido que se perdeu no tempo: a capacidade de ouvir, de ouvir o silêncio, de ouvir nós mesmos, de ouvir o outro, de ouvir nosso Deus.
Quando estive há pouco na chapada Diamantina, entre trilhas e matas, cascatas e cachoeiras, o silêncio tinha lugar especial. Às vezes, fatigados da caminhada, eu e meus companheiros caminhávamos calados e, de repente, éramos surpreendidos pela voz do outro que interrogava curioso: “Que som é esse: é um pássaro?”. “Que barulho é esse: é um córrego que corta a Chapada?”, dizia alguém. “Que silencio maravilhoso, dizia outro!”. O silêncio experimentado nesses ambientes fugidios faz bem: restaura a alma, traz paz, alivia as tensões... Ele nos ajuda a aguçar a capacidade de ouvir.
A capacidade de ouvir é um dom especial e não está ligada somente ao bom funcionamento dos tímpanos e de outros órgãos externos. Ela diz respeito a uma atitude interna, de modo que pessoas surdas podem ouvir mais que alguns que têm boa audição. Ouvir o outro, perceber sua presença, acolher sua palavra e entrar em comunhão com ele são coisas que exigem esvaziamento de si para ser penetrado pelo outro. A capacidade de ouvir é tão importante que, para o povo de Israel, “ouvir a Deus” se tornou o primeiro e mais importante de todos os preceitos: “Shemá, Israel”, repetem as Escrituras sem cessar. Os Decálogo está sob a custódia da capacidade de ouvir. Antes de elencar os dez mandamentos, Moisés dá o mandamento zero, aquele sobre o qual todos os outros se assentam, se sustentam, se apoiam. Sem ele, as prescrições descritas se tornam vazias, mero cumprimento legal que mais podem afastar de Deus do que aproximar dele. É preciso aprender a ouvir. O Deus de Israel fala e exige postura de escuta. O salmista, muito escolado nessa prática, diz: “Uma vez Deus falou, duas eu escutei” (Sl 62,11). Ou melhor, ele está mais disposto à escuta do que a falatórios inúteis. Ou ainda, como disse Isaías: “Cada manhã, o Senhor me dá ouvido de discípulo” (Is 50,4). Para ser discípulo, não basta coragem para se pôr a caminho. É preciso escutar com ouvido afinado o que ensina o mestre. Não foi à toa que, quando interpelado por Deus, Samuel foi orientado pelo velho Eli a dizer: “Fala, Senhor, teu servo escuta!” (1Sm 3,8).
Recuperar a capacidade de ouvir é urgente. Para nós, cristãos, essa urgência se impõe ainda mais. Em meio a esse mundo tão barulhento, como distinguir a voz de Deus que fala tão sorrateiramente no íntimo do coração? Sua palavra, singela mas cortante como uma lâmina, nos arranca de nós mesmos e nos faz sair rumo ao outro. E mais. Ela tem o poder de nos mostrar não só o outro que está ao nosso lado, mas tem o condão de nos mostrar a nós mesmos. Em tempos em que nos sentimos tão perdidos de nós, recuperar a capacidade de ouvir é passo essencial para a felicidade desejada.
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