71. Entre cinzas e flores


Lembra-te que és pó e ao pó voltarás (Ecl 12,7)
Tu és folha de outono
voante pelo jardim.
deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...
(Cecília Meirelles)
Gosto de quaresmeiras. Quando eu morava em Belo Horizonte, a janela do meu quarto dava pra rua. Olhando por ela, o que chamava a atenção era a quaresmeira na calçada, especialmente quando florida. Em tempos de ventania mais forte, minha escrivaninha ficava cheia de folhas roxas. Achava inspirador para a poesia, para uma boa leitura ou para uma boa música aquele arranjo; janela, vento, folhas roxas esvoaçando... A beleza realmente salva.
Há pouco tempo, descobri que as quaresmeiras são pioneiras, rústica, fáceis de cultivar mesmo em solos mais pobres. Foi numa viagem à Serra da Canastra. Na paisagem, destacavam-se as flores violáceas, “mais de noventa espécies” – dizia o guia. “Elas indicam que a natureza está se renovando” – acrescentava. Eu pensei: ele é poeta. Afinal, é a poesia que se revela, que nos acha, que se encarna; longe de mim escrever poesia ou criá-la, eu só a sirvo. Ele devia ser mais um servidor das palavras, achei. E era, mas ele falava também uma verdade da botânica: a quaresmeira floresce antes de árvores de grande porte. Em regiões de sucessão ecológica portanto, indicam que um novo ciclo da natureza está começando.
Tudo a ver com a quarentena de exercícios que a Igreja propõe todo ano. Tempo propício para que, aquilo que é de “grande porte”, na nossa “natureza”, possa florescer. Não tempo de tristeza, de austeridade puramente exterior, de sacrifícios desmesurados, de rituais vazios, orações multiloquentes, ou caridades sem intenção verdadeira (Cf. Mt 6,1-6.16-18). Para além de uma quaresma de práticas vazias, ou passageiras tanto quanto o são esses breves quarenta dias, esse é um tempo favorável para que a nossa justiça brote, rebrote, dê flores e frutos autênticos. Não por outra razão, o Evangelho de abertura da quaresma nos aponta para a vivência das práticas da justiça em segredo, longe dos olhos dos homens, onde só o Pai nos vê: para que nasça de uma consistência firmada não em hipocrisias, não em rituais vazios, ou austeridades fingidas.
Não é um tempo também de viver uma esquizofrenia pós-carnaval, passando da intensa alegria a uma suprema desesperação de quem se sabe “pó e ao pó retornará”. Nada disso. Aliás, ouvi numa reportagem um senhor dizendo isto ao repórter: “queria que o carnaval nunca acabasse”. Sua expressão quase desalentada e sua ilusão – até inteligível – era a de que a alegria nunca tivesse fim. E é difícil não desejar isso. Quem nunca desejou? Mas sem encararmos que também há cinzas entre os fogos festivos dessa vida, ora que realismo nos sobraria? E se tudo é festa, nada é festa, porque não teríamos como diferenciar... No entanto, é difícil para a Igreja, assumamos, ter que ficar com a dita tristeza das cinzas e da quaresma.
Contudo, nosso imaginário é precisamente avesso a uma ideia de “quarentena sofrida”, arrisco-me a dizer. A quaresma é um tempo de peregrinação, entre as cinzas, a dor e a morte – inelutáveis realidades dessa vida – a fim de encontrar a alegria que nos aguarda. A festa que nos espera promete romper para sempre o desencanto de nosso desespero e a nossa falta de sentido, que a morte ergue como estandarte. Por isso, os cristãos assumem esse tempo com sobriedade, mas com esperança: é tempo de florescer. Tempo para quem não tem tempo; para quem não reluta ao “rasgar o coração” (Cf., Jl 2,13) e voltar-se para o Deus que está voltado para nós. Para o Deus que fez daquele que não tinha pecado, pecado para nossa salvação (Cf., 2Cor5,21). Por mais fundo que caiamos, desde já, cairemos nas mãos misericordiosas de Deus.
A quaresmeira, de novo ela, floresce entre janeiro e abril ou entre agosto e outubro. Sempre é tempo de renovação, em verdade. Mas se esse tempo que hoje abrimos, com a quarta-feira de cinzas, puder ser realmente favorável, Paulo apóstolo terá afirmado certeiramente: “é este o dia da salvação” (Cf. 2 Cor 6,2).
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