69. No toque da liberdade


“Não me toques!” (Jo 20,17)
“Liberdade é uma palavra
que o sonho humano alimenta,
não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.”
(Cecília Meireles)
Quem no dia-a-dia da vida não sentiu que um relacionamento o sufocava? Por quantas vezes não sufocamos, também nós, os outros? É possível se entregar a um relacionamento humano, afetivo, com Deus ou com o outro, sendo livre?
Sabemos que um dado constitutivo do ser humano é sua característica relacional. Todas as vezes que afirmamos o nosso “eu”, centenas de “tus” estão por detrás e influenciam o modo como aquele “eu” fala, pensa, se veste, se comporta, entre outras coisas. Estruturalmente estamos todos interligados e, de certa maneira, necessitamos do outro para que a nossa existência tenha sentido.
Porém, quem nunca quis ficar por um instante sozinho, retirado, na solidão, a fim de conhecer, refletir e pensar sobre si próprio, sobre o mundo, sobre as pessoas e sobre Deus?Se, por um lado, temos diante de nós um “Outro” com qual necessitamos relacionar, por outro, somos também interioridade que necessita e deve ser cuidada e cultivada. O limite entre um espaço e outro pode ser um caminho de harmonia e liberdade.
O evangelista João, em todo o seu Evangelho, tem a preocupação de mostrar Jesus como o protagonista de todas as cenas, além de enfatizar que Jesus, destituindo estruturas religiosas corrompidas e desvirtuadas, resgata o sentido primordial do relacionamento humano com Deus e com o próximo.
Tendo esse cenário de fundo, compreendemos a passagem em que Maria Madalena, procurando entre os mortos Aquele que estava vivo, quis tocá-lo ao vê-lo. Jesus é categórico: “Não me toques!”. Mais do que um simples toque, a passagem evoca um tema presente na literatura de Israel e nos Evangelhos, a saber: a idolatria. Tocar Jesus é querer tê-lo para si, é ser dono dele e fazer com que ele perca o papel de protagonista; eis o que nos diz João com a reiterada expressão de Madalena: “o Meu Senhor”.
Idolatria acima de tudo é a perda da liberdade. Não é sem sentido que o Decálogo – as dez palavras que tratam sobre o relacionamento humano com Deus e com o próximo, contidas no livro do Êxodo – inicia-se com a prescrição contra a idolatria. Deus nos quer livres e liberdade, como diz Cecília Meireles, é a palavra na qual pensamos e buscamos desde os primórdios de nossa existência até o fim de nossa vida.
Se buscamos, desde sempre a liberdade, por que aprisionamos a nós mesmos, os outros e até mesmo Deus? O evangelista João, bem como os outros três, nos mostra que,acima de tudo, Jesus viveu a sua liberdade e quis que os seus também a vivessem. Os que o seguiram fizeram-no porque quiseram; outros não foram atrás dele. Os que iniciaram uma caminhada com ele puderam sair depois de terem iniciado. Acima de tudo, o que não faltava a Jesus em seus relacionamentos era a clareza e a sinceridade de apresentar aquilo que ele podia oferecer, bem como descobrir aquilo que a nossa existência guarda em si e vai se revelando no caminhar.
Oxalá entendêssemos isso! Que Deus não fosse propriedade nossa; que os pais deixassem seus filhos partirem e crescerem; que os amigos soubessem entender os diversos momentos da vida do outro amigo e o acolhessem sem querer possuí-lo; que os amantes soubessem que o amor é bem mais que estar juntos a todo momento, mas é ser juntos, apesar da distância. E por aí vai. Inúmeros exemplos citaríamos, mas o importante é que enquanto a liberdade toca a sua música, nós tenhamos ouvidos atentos e saibamos bailar!
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