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65. Rezar com o coração

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15.01.2016 | 5 minutos de leitura
Wellington Martins
Crônicas
65. Rezar com o coração

“Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios,

porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos” (Mt 6,5)



“A função da oração
não é influenciar Deus,

mas especialmente mudar

a natureza daquele que ora”.

(Soren Kierkegaard)



Ainda bem que Deus não está à mercê do nosso muito falar e do barulho de nossas orações. Desprovidos seriam os tímidos e os menos corajosos; os menos afortunados verbalmente e os iletrados! Entretanto, o que se vê hoje são igrejas barulhentas e excessivamente tagarelas. Assemelham-se às crianças pirracentas que querem a todo custo chamar a atenção do pai. Para esse povo, para esta realidade, apresento Dona Isalina.


Certa vez conversando com Dona Isalina, uma simples senhora do meio do povo, ela me disse com toda a sua simplicidade: “Olha meu filho, eu não sei ler; não sei fazer um ‘o’ com o copo, mas à noite, antes de dormir, eu pego a Bíblia, coloca ela sobre o peito e falo pra Deus: ‘Senhor, eu não sei ler uma palavra, mas creio que sua Palavra não passa jamais. Por isso, te entrego confiante a minha vida’”. Fiquei emudecido com tal testemunho, com tamanha simplicidade e verdade. Dona Isalina, a mulher que não sabia escrever a letra “o”, rezava com a sua vida, numa entrega confiante a Deus, sem precisar de muitas palavras ou de alguma fórmula mágica.


Dona Isalina, ao rezar sua vida, trouxe um novo colorido às páginas escuras de sua existência. Felizes seremos nós quando entendermos que a oração é diálogo, é busca, é entrega. É buscar somente a Deus, porque ele nos basta, como dizia Santa Teresa D’Ávila. Dona Isalina aprendeu que “a função da oração não é influenciar Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora”. Sua vida era transformada pela oração confiante. De fato, a postura de uma pessoa orante é diferente. Salta aos olhos! Bastava olhar para Dona Isalina pra gente ver a presença de Deus.


A comunidade de Mateus vivia essa preocupação. Por isso, o Evangelista admoesta: “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos”. Mateus adverte sua comunidade de cristãos de origem judaica para o perigo da exterioridade. Ele critica o modo de orar dos judeus, lembrando-lhes que eles estão rezando como os gentios. Estão transformando o judaísmo em baalismo (religião dos pagãos). A exterioridade gera esterilidade!


Naquele tempo, a piedade judaica havia caído na exterioridade por parte de alguns: importava ser visto, elogiado, exaltado. O valor da oração estava na pessoa que a praticava. Ora, Mateus censura esta vã exteriorização e esforça para trazer sua comunidade para a interioridade, pois é aí que a oração deve nascer. A catequese de Mateus é bem oportuna para os dias de hoje. Precisamos descobrir o valor da oração em si mesma; ela nos coloca em comunhão com Deus e nos encoraja para a vida, para vivermos a proposta do Reino. Pela oração, somos transformados, revitalizados, santificados!


A oração é rezada com a vida, com a nossa história, com os nossos limites. Uma vida vivida em confiança a Deus – como a de Dona Isalina – é a mais bela oração. Isso não quer dizer que não precisamos de um horário específico para orar, para falar com Deus. A oração é uma necessidade antropológica daquele que crê! Mas, sempre é bom lembrar, que o que vale não é o muito falar, a altura ou a beleza de nossas palavras. Valem a verdade de nosso interior, o nosso compromisso e a finalidade de nossa oração. Valem nossa liberdade diante de Deus e sua gratuidade para conosco. Logo, não parece razoável orar determinando a Deus o que ele deve nos dar. Não poucas pessoas têm o costume de rezar determinando o que querem receber: “eu quero isso”; “no final dos nove dias, receberei aquilo...”. Ao contrário, Mateus nos ensina que o fruto da oração não é coisa, uma graça recebida, mas a comunhão com Deus, a graça que é ele mesmo em nós.


“Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos”. Quando se reza com a vida, não é preciso se preocupar com o linguajar, com os floreados ou com as repetições. A vida fala por si só; a oração brota do coração. A vida vivida com Deus, em Deus e para Deus já é uma oração. É comunhão! É tão belo quando as pessoas rezam com a simplicidade do seu dia-a-dia, com a sua realidade, com seus elementos familiares. Caso contrário, só nos resta o bom e velho ditado popular: “carroça vazia é que faz barulho”.





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