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94. A cultura da suspeita e a necessidade da rotulação

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15.07.2016 | 4 minutos de leitura
Wellington Martins
Crônicas
94. A cultura da suspeita e a necessidade da rotulação

Não julgueis... (Lc 6,37)


 

“Quem sou eu para julgar?”

(Papa Francisco)



Outro dia, alguém me disse com perplexa alegria: “Que bom, na Amoris Laetitia, o Papa Francisco afirma que duas pessoas do mesmo sexo não formam um casal”; e ainda concluiu: “eu não acredito no amor entre dois homens. É impossível”. Infelizmente, para defender o modelo de família tradicional, limitamos o próprio amor e sua força e desvirtuamos as palavras do Papa Francisco a bel-prazer. Fato é, mesmo com toda a clareza e transparência, Francisco anda sendo mal interpretado. Estamos sujeitando o Papa a nossa cultura de tudo suspeitar, tudo querer rotular sem compaixão e misericórdia. Nossos tribunais são por demais impiedosos!


O Papa Francisco está mais preocupado em acolher e amar, em testemunhar a misericórdia para pessoas reais e concretas que em rotular e discriminar. Quando ele diz “quem sou eu para julgar?”, revela toda a teologia lucana da misericórdia. Deus se aproxima de nós por gratuidade e não por nossos méritos. Deus não pergunta quem somos, mas ele se revela a nós e nos ama em nossos limites, na complexidade das diferentes situações nas quais existimos.


Quem sou eu para julgar?” é a possibilidade de nos colocar em atitude de vigilância e autocrítica. Eu reconheço as minhas mazelas, meus limites, percebo minhas fragilidades. Solidarizo-me com o outro a partir do que ele é, não do idealismo que quero lhe impor. Aliás, lembra o Papa: um peso que nem nós suportamos. Em razão disso: “Não julgueis”.


O “Não julgueis” de Lucas e o “quem sou eu para julgar?” de Francisco são os clamores misericordiosos num mundo ávido por exclusão, difamação e injustiça. Clamor que nos admoesta a evitar juízos absolutistas e desumanos, e nos convida a estabelecer relações saudáveis, gerir convivência pacífica e humanizadora. O outro é digno do meu amor, da minha dedicação. Não posso tecer relações pelo comodismo da rotulação, da fria e triste adjetivação. A rotulação é o vício ou a desculpa para não aceitar o diferente, para colocar à margem o indefeso, o já excluído. No fundo, rotular é se esquivar de comprometer-se.


A Amoris Laetitia, mais que rotular ou segregar, quer unir. Quer que todos sejam alegres no amor e na comunhão, afetados pela misericórdia do Pai e não pela cultura da suspeita.Mais que corroborar com nossos pensamentos preconceituosos, quer nos mostrar o caminho que pode congregar e criar laços de fraternidade com todas as famílias, especialmente, a grande família humana. O problema não está no documento, mas nos óculos que usamos para lê-lo.


Creio que Francisco não está preocupado em rotular quem deve ou não formar um casal, uma família, mas, pelo seu pastoreio, mostra-se preocupado com as mazelas sociais, com os famintos, com os refugiados à deriva de nossa falta de amor. As preocupações de Francisco são mais de ordem existencial do que questões de adjetivação. Ele não julga, age, e age sofrendo com o outro. Age por zelo e sensibilidade.


Homens e mulheres de boa vontade, não temos o direito de decidir pelo outro, muito menos julgá-lo. Nossas relações não devem ser regidas pela frieza das normas e pelas lacunas ideológicas. Hoje somos convidados a acolher para bem conviver. Só posso entrar na casa do outro, na vida do outro, para ser uma presença de amor, experimentar Cristo nele e ele em mim. Aliás, “quem somos nós para julgar?” Uma pergunta tão séria quanto comprometedora. Ou no dizer da Irmã Dulce: “As pessoas que espalham amor, não tem tempo e disposição para jogar pedras”. Amar misericordiosamente, sim; rotular, não.





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