66. A noite da crise


“Então, depois de receber o bocado,
Judas saiu imediatamente. Era noite” (Jo 13,30)
“A noite veio e ela continuou a respirar
no mesmo ritmo estéril.
Mas quando a madrugada
clareou o quarto docemente,
as coisas saíram frescas das sombras...”
(Clarice Lispector).
Quando a noite vinha vindo, sentado no chão do quarto, fechava meus olhos e escutava atentamente o barulho do mar. Sentir o movimento das águas provocava na minha alma profundas reflexões. Essa experiência me fez enxergar a própria solidão, como canta Sandy: “Ouve o mar que soluça na solidão. Ouve, amor, o mar que soluça na mais triste solidão”. No silêncio da noite, a vida costuma vir à tona carregada de angústias, tristezas e medos. Experimentar, então, a noite da crise significa ouvir, tocar e ver de perto as tantas situações que nos envolvem. Mas não é tarefa fácil sentir o desespero da noite.
Relata João no seu Evangelho (13,21) que Jesus experimentou a noite ficando “interiormente perturbado”, inquieto, pois, sendo um homem como nós, passou também pela crise, diante da possibilidade da morte. Por isso, a partir do capítulo 13, João, começa a narração da “Hora” de Jesus, ou seja, a sua entrega. É Jesus quem vai se entregar, pois ele é o protagonista do Evangelho de João. Nesse sentido, como discípulos, Jesus nos convida a fazer da nossa vida uma entrega constante, a dar tudo de nós, sendo o seu verdadeiro amigo. Não como Judas que “saiu imediatamente”, abandonando Jesus para traí-lo. Judas saiu do Caminho e fez o seu próprio caminho com traição. Ora, Jesus nos chama a nos abrirmos para sua luz, que nos leva a amar e não a trair. Entrar no caminho de Jesus implica não ter medo de aprofundar na noite da nossa vida. É bem verdade que a solidão da crise nos entristece, mas é bem verdade também que essa experiência de crise nos faz evoluir, crescer e ir amadurecendo.
Jesus não é entregue pelos outros, como se estivesse sido forçado a isso. Ele se entrega pelos seus.A noite da crise que ele sente confirma a sua decisão de doar-se por amor. Mesmo que a noite, no agitar das águas, tente enjaular o amor, o amor voa penetrando o mundo com a sua vida. O amor não aceita cadeias. Assim como nos lembra Saint-Exupéry em “O Pequeno Príncipe”: “O bom é que a caixa que você me deu, à noite, vai servir de casa”. Uma simples caixa de papelão pode servir de conforto na madrugada fechada pela noite, pode ser abrigo na hora difícil. Na hora da dor, pequenos gestos e palavras de amor nos abrigam. Foi o que aconteceu com Jesus. Na noite da sua vida, na hora da entrega, abrigou-se na experiência do amor do Pai.
Jesus experimentou a noite de forma intensa e profunda. Passou pela traição, pela negação, por humilhações, pela prisão. Jesus ressignificou tudo isso. Ele mesmo se entregou, a fim de que o mundo creia na intensidade do amor do Pai.
As experiências da noite são inúmeras e temos que cuidar do coração para não cairmos no desespero. Não é tarefa fácil a experiência da solidão. Mas como diz Leloup, “podemos abrir uma esperança no cerne do desespero”. No momento em que estamos no caos, temos a oportunidade de recomeçar a vida, acreditando na superação, na mudança, no novo e na possibilidade de ser feliz.
Ora, assumir a noite, ou seja, a crise, significa caminhar decididamente em meio a muitas dificuldades que se apresentam. Bem cantou Vinícius de Moraes: “De manhã escureço, de dia tardo, de tarde anoiteço, de noite ardo”. Isto é, temos a oportunidade de renascer no clima infeliz da noite da tribulação. Por mais que experimentemos perdas, dores e muitas lágrimas, nada pode nos impedir de “arder” no dia-a-dia. As lágrimas não são mais abundantes que a força do Espírito, que nos sustenta e conduz no caminho da vida.
Podemos até considerar que ficamos pesarosos pela noite da vida. Porém, como aprofunda Clarice Lispector: “quando a madrugada clareou o quarto docemente, as coisas saíram frescas das sombras...”. O agitar das águas do mar tem o dever de remexer o coração, penetrar as nossas motivações e acalmar a nossa vida. Aprendamos a não nos render diante da noite escura.
Hoje, fechando os olhos à noite, a escuta da voz do mar me conduz ao recomeço, à decisão e à força de continuar vivendo.
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