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41. O espanto e a vida

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18.08.2015 | 4 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
41. O espanto e a vida

“Senhor, como são grandes as tuas obras!” (Sl 92,6)


 

“A espantosa realidade de todas as coisas 

é minha descoberta de todos os dias!”

(Fernando Pessoa)


 

Quem nunca foi surpreendido pela vida? Quem nunca se pasmou diante de um acontecimento? Quem nunca ficou estarrecido diante de um acontecimento, por mais que ele tenha sido esperado ou anunciado? Quem nunca chorou de espanto, seja de dor ou de alegria? Quem nunca bambeou as pernas diante de uma notícia recebida ou jamais se emocionou com uma surpresa? A vida e seus mistérios, seus segredos, suas surpresas! Tanto se descortinam belezas surpreendentes quanto sobem ao palco da vida tragédias inesperadas, ou até anunciadas! E ficamos estarrecidos com a espantosa realidade das coisas, descoberta de todos os dias que não cessa jamais!


No salmo 92, o salmista está estarrecido diante da beleza, mas na Escritura há também aqueles que revelam seu espanto diante da dor. “Estou atolado no lodo profundo, onde não posso ficar de pé; caí nas águas profundas e as ondas me arrastam!” (Sl 69,2). Espantado, Jó exclama: “O que eu mais temia aconteceu comigo; o que eu receava me aconteceu!”. Não faltam nas Escrituras manifestações de surpresas diante dos misteriosos caminhos da vida! Plagiando Tolentino Mendonça eu diria: Essas surpresas não são “uma janela que se abre, mas um inesperado e fundamental espelho” pra gente se ver, se perceber, se conhecer. Diante do inesperado da vida, o mais profundo de nós vem à tona: seja gratidão ou horror!


Eu ando particularmente estarrecida com as fraquezas humanas, as fragilidades e debilidades da psique, que saem do abismo da alma e se mostram sem pedir licença. Os recorrentes casos de doenças mentais, psíquicas e psiquiátricas, as doenças neurológicas e ou auto-imunes, depressões, estresses, angústias, neuroses, epidemias dos tempos atuais. É bem verdade que não vivíamos tanto tempo pra ver as misérias mais profundas virem à tona. Morríamos de peste, de infecções, de fome, de guerra, antes da maturidade e suas doenças se manifestarem. Além disso, doenças psíquicas e mentais assustavam menos; eram vistas com certa normalidade – coisa não mais possível com o avanço das ciências e especialmente das neurociências. Espanta-me ver como – depois de tanto progresso – continuamos tão impotentes diante dessas doenças. Somos uma formiguinha indefesa diante do sapato esmagador das doenças degenerativas! E parece que não há nada a fazer a não ser aceitar o destino, ou seja, o ritmo da vida que não pede licença para se impor. A luta contra a genética, então, essa é totalmente inglória! Tanto esforço pra nada! Uma coisa estarrecedora. O melhor parece ser a gente abraçar a cruz e caminhar rumo ao nosso Calvário, como fez Jesus.


Resignação é atitude difícil de exercitar. Para quem é lutador e guerreiro como eu, é mais doloroso lutar contra a própria vontade de lutar e ter de aprender a resignar-se, do que lutar contra o gigante Golias. Nessas horas, a gente não sabe o que fazer, mas tem certeza que a fé cristã pode ajudar. Lá do profundo do abismo de nós mesmos, uma voz clama dizendo “ainda há muita coisa bela pra se ver!”. Nesse momento, a capacidade de se surpreender com as tristezas da vida é convidada a se converter e a continuar, mesmo na dor, a ver tudo de bom que a vida já nos reservou ou ainda está nos reservando. Cada dom, cada sinal de amor, cada gesto de ternura não podem ser vividos sem o espanto e a admiração que merecem. Rezemos a Deus, mistério sempre insondável a nos surpreender com seu amor, que não nos deixe endurecer diante dos absurdos da vida. Não nos falte a capacidade do salmista de sempre dizer a cada amanhecer: “Senhor, como são grandes as tuas obras!”.





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