27. Presença na ausência


“Eu estarei convosco todos os dias...” (Mt 28,20)
“Nunca mais vou estar sozinho...
Por onde ando reconheço o destino,
Por onde olho eu tenho esperanças,
Por onde inclino a minha direção, tenho você.”
(Vanessa da Mata)
“Doce é saber, não estou sozinho...”, canta a canção atribuída ao Santo de Assis. De fato, a solidão pode pesar e boa companhia é coisa que não se dispensa. Um amigo, um irmão, uma companheiro de caminhada, um cúmplice nas horas de sufoco, um filho, um amor... Companhia querida não é aquela que está junto o tempo todo, mas que o tempo todo está presente, mesmo na ausência. Tem gente que é tão querida, tão especial, que, onde quer que andemos, sentimos sua presença, vemos o fulgor de seus olhos, escutamos o pulsar de seu coração. E pensamos: “Nunca mais vou estar sozinho, pois tenho você!”. É o que sente uma mulher depois de dar a luz a um filho, dizem as mães.
Mas a experiência da presença não é exclusividade das mães. É atributo do amor. Basta amar para não se estar mais só. Basta se deixar amar para reconhecer a presença do amado em cada situação. Tudo fala do amado: cada paisagem, cada texto, cada conquista, cada fracasso, cada dor... Tudo remete a ele... Tudo invoca sua presença... Tudo pede pra ser compartilhado com quem a gente ama... Quando amamos, a presença do amado perpassa nosso cotidiano, arrancando-nos da mesmice, dando sentido a cada pequena coisa.
Essa experiência da presença foi o que marcou a vida dos seguidores de Jesus depois de sua morte. Uma presença na ausência: tão forte, tão clara, tão nítida, que era impossível não ver! Certamente não se trata de um olhar comum, corriqueiro, mas de um olhar profundo lançado a partir da fé, daquele olhar penetrante que nasce desde dentro e faz enxergar um facho de luz até na mais tenra escuridão.
Os discípulos de Jesus, narram as Escrituras Cristãs, viram o Senhor, pois o Ressuscitado lhes apareceu. Ele mesmo se deu a ver, se mostrou, se revelou vivo, companheiro nas jornadas que se seguiram depois de sua morte. E, por onde eles andavam, lá estava ele: no caminho para Emaús, nas reuniões comunitárias, nas refeições, na pescaria... Não era preciso um local especial, nem uma situação especial. A força do amor era tão grande que, nos gestos mais simples, a presença do Vivente se impunha. Jesus se fazia presença marcante, deixava seus rastros, se dava a conhecer. Alguns estranharam. Afinal, como um morto poderia ficar presente, mais presente que antes, quando estava nos limites da história? Não era mesmo uma presença corriqueira. Algo novo havia naquele fenômeno.
A presença do Ressuscitado ressignificou toda a vida dos discípulos. Eles já não eram mais os mesmos, desde que tinham conhecido Jesus e o haviam reconhecido no seu cotidiano. Uma presença nova acontecera; um olhar novo fora lançado sobre todas as coisas. O temor havia se dissipado; a intrepidez tomou conta de suas vidas e eles se dispuseram a segui-lo e a servi-lo, ao preço de suas vidas. Porque é assim: quando o amor chama, disse Gibram, melhor segui-lo. Foi o que fizeram os discípulos, envolvidos pela sedução do amor do Ressuscitado. Na certeza de nunca mais estarem sozinhos, entregaram-se ao amor de Jesus sem reservas. E sua presença encantava cada momento, mesmo o mais banal.
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