276. Dias melhores
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12.06.2023 | 3 minutos de leitura

Crônicas

“A esperança não decepciona, pois Deus derramou seu amor em nossos corações
por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu” (Rm 5,5)
"Vivemos esperando
O dia em que seremos melhores (melhores)
Melhores no amor
Melhores na dor
Melhores em tudo"
(Jota Quest).
Quando olhamos para o passado recente, nos perguntamos como sobrevivemos à avalanche de problemas que se abateram sobre nós: um governo genocida de extrema direita, uma pandemia avassaladora e mortífera e ainda uma crise econômica sem igual. Realmente, somos sobreviventes de uma hecatombe, tal foi a destruição experimentada. Ainda sentimos o efeito de tudo isso. Nossas noites não são mais as mesmas. Dormimos mal nos revirando a noite inteira à procura de um aconchego que a vida nos roubou. Nossa saúde mental e psíquica não se refez. Somos assaltados por pesadelos, por monstros que ameaçam nos devorar. E, como era de se esperar, a saúde física também piorou… Sem contar a saúde social. Ao conhecer alguém, logo nos perguntamos: “Será este ou esta também um facista despistado de gente de bem?”. Andamos com medo de confiar, de acreditar no outro; somos tentados à desconfiança.
Será que dias melhores virão? A pandemia vai ficando no passado. O governo facista se viu obrigado a dar lugar a um governo popular que, mesmo com todos os problemas, nos leva a ver uma luz no fim do túnel. A diversidade de ministros e secretários, de toda raça, cor, sexo e etinia, geram no íntimo um sopro vivificador. Mas a economia continua emperrada. Essa vai demorar, pois o estrago foi grande demais e a solução do problema depende de muitos outros fatores além da boa vontade do presidente da república.
Dias melhores dependem de todos, como canta o grupo Jota Quest. Não depende só de um líder, mas também do Congresso Nacional, do Senado, do Judiciário, de cada um de nós, que precisa somar seus esforços a tantos outros para gerar o bem estar social esperado. Cada um precisa ser melhor no amor, na dor e em tudo, canta a banda mineira.
Certamente, não podemos ser responsabilizados isoladamente pelo bem estar do mundo ou da nação. No entanto, pequenos gestos podem fazer a diferença. Os esforços para vencer o machismo, o racismo e a LGBTfobia estão no topo da lista das iniciativas necessárias para que o sol brilhe outra vez sobre nós. Na onda de facismo que se abateu sobre o Brasil como um tsunami, violência e preconceito respingaram sobre as almas de boa vontade. Como lidar com tudo isso?
Nessa semana, participei de um Simpósio que tratou dos invisíveis da sociedade. Gostei de ver a iniciativa da Instituição de Ensino em Filosofia e Teologia dando voz e vez às mulheres e aos negros. Cada pessoa da mesa pode dizer de sua realidade de exclusão e das marcas desse processo degradador de humanidade. Mulheres sofridas com o machismo e a misoginia, negros machucados pelo preconceito e pela exclusão… Uma ferida aberta que não promete cicatrizar tão fácil. Mas é preciso esperançar. Sempre!
Olhando pela ótica da fé, a esperança aumenta, pois abre-se um novo horizonte de sentido para quem crê na ressurreição. Os cristãos são provados no cadinho da humilhação. Aquele que entendeu quem é Jesus e fez opção pelo seu seguimento até na cruz vive de esperança. Come esperança. Mastiga esperança. Digere esperança. Dia e noite se alimenta de esperança, porque a ressurreição de Jesus é a vitória da esperança sobre a morte. “Vivemos esperando dias de paz, dias a mais, dias que não deixaremos para trás”.
Como poderiam aqueles que são movidos pelo Espírito de Cristo se entregarem ao desânimo e ao desalento? Como poderiam não se deixar inflamar pelo amor que Deus manifestou a nós e que nos faz ver o mundo e todas as coisas pela ótica da esperança? O Espírito é sopro vivificante e nos capacita para lutar contra toda apatia ou desespero. Ele insufla em nosso pulmões o seu alento e nos faz recuperar a capacidade pulmonar perdida em meio aos escombros da morte. “Dias melhores virão”, continuamos repetindo. Ou ainda, baseados na esperança do livro do Apocalipse, repetimos: “Irá chegar, um novo dia, uma nova terra e um novo mar. E, nesse dia, os oprimidos a uma só a liberdade irão cantar”. Somos constituídos de esperança e sem ela nos desumanizamos. Fomos bem nutridos no seio da fé; ela não nos deixa desesperançar.