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22. O perigo da fogueira

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03.04.2015 | 5 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
22. O perigo da fogueira

“Blasfemou!

É réu de morte” (Mt 20,65-66)



“Joga pedra na Geni...

Ela é feita pra apanhar... 

Maldita Geni!”


(Chico Buarque)



A música popular Geni e o Zepelim, de Chico Buarque de Holanda, causou estranheza em muita gente na década de 70. A prostituta de bom coração, exposta a todo tipo de zombaria por parte de sua sociedade, tornou-se escândalo para as consciências pudicas e defensoras dos bons costumes. Com arte e irreverência, o compositor brasileiro criticava a hipocrisia da sociedade, tão preocupada com alguns princípios morais e tão relaxada com outros, igualmente importantes ou até mais importantes ainda.
O tempo passou e continuamos jogando pedra nas Genis. Ando preocupada com a maneira com que alguns – ainda hoje – têm sido lançados, pelos mais santos e ortodoxos católicos, na fogueira da heresia. Outro dia mesmo, em sala de aula, quando falávamos de novos paradigmas para a catequese, um aluno atreveu-se a pensar alto e foi logo advertido por um dos colegas que, em tom de condenação, falou: “A fogueira ainda existe; cuidado viu?”. Voltei pra casa pensativa... O que será que se passa na cabeça de um aluno, ainda iniciante no curso de teologia, que ameaça o colega com a fogueira da inquisição?
Foi aí que – no clima da Semana Santa – me veio à memória o texto da narrativa da paixão, presente nos Sinópticos: “Ele blasfemou! É réu de morte!” (Mt 26,65-66; cf.Lv 24,16). Em nome da verdadeira religião, em nome da ortodoxia da fé, em nome de Deus, impiedosamente as autoridades religiosas (cuja função era zelar pela ortodoxia da fé) condenaram à morte Jesus de Nazaré.
Jesus morreu como um malfeitor, numa cruz; morte dada aos inimigos do império romano, logo sua condenação final foi por motivo político: inimigo de César. Mas toda a trama que desembocou na sua entrega às autoridades romanas teve como princípio gerador um motivo religioso e não político. Ele era um blasfemo, um traidor da fé, um inimigo de Deus, afirmaram alguns piedosos judeus que zelavam com ardor pela ortodoxia da fé.
No dia em que meu aluno condenou seu colega à fogueira da inquisição, que só existe – graças a Deus – na sua cabeça, fiquei pensando mil coisas. Duas delas merecem ser partilhadas. Primeiramente, na contemporaneidade, cuja marca é a pluralidade, e onde a hegemonia da fé católica já não encontra mais espaço, como pode alguém ainda falar em fogueira simplesmente porque um irmão de fé pensa diferente? Vivemos num mundo multirreferencial, no qual até a fé mais ortodoxa só pode ser reconhecida como genuína se admite uma pluralidade interna. A liberdade de pensamento, inclusive para pensar a fé, é condição da qual os pós-modernos não abrem mão. Que futuro haverá para a fé cristã se ela se fechar e não souber criar espaço para um fecundo diálogo interno, que favoreça a comunhão e a partilha?
Em segundo lugar, o que me preocupou foi a banalidade do motivo que despertou no aluno de teologia o desejo de reacender a fogueira da inquisição, extinta – graças a Deus – há tantos séculos. Fiquei pensado na condenação de Jesus. Se de fato, alguma fogueira deveria haver neste mundo, não seria para condenar os erros e tropeços possíveis na profissão de fé, equívocos – aliás – dos quais nem os santos estiveram livres. Santo Agostinho, por exemplo, apesar de doutor da Igreja e defensor ferrenho da fé cristã, incorreu no erro da predestinação das almas. E, assim como ele, muitos outros. A lista seria imensa se fôssemos elencar os nomes. Então, o que deveria tal fogueira queimar? Certamente não as pessoas, sempre dignas de afeto e consideração, sempre focos da atenção e do perdão de Deus. A fogueira da inquisição deveria queimar algo triste que insiste em permanecer entre nós: a arrogância, o complexo de superioridade, a incapacidade de amar, a intolerância, o desejo de impor ideias, mesmo que seja em nome da fé, em nome de Deus...
Quando é que vamos entender que não há heresia maior que não amar, uma vez que a fé cristã é a religião do amor? Deus manifestou todo seu amor a nós em Cristo. Jesus levou esse amor tão a sério que – por causa dele – foi crucificado num madeiro como blasfemo e malfeitor. E, em nome desse amor, ele derramou em nossos corações o seu Espírito Santo. Não há, pois, nenhuma heresia superior a essa: não amar como Jesus amou. Nenhum equívoco acerca dos dogmas ou doutrinas da fé se equipara ao absurdo de não amar, de achar-se superior aos outros, de ser dono da verdade, de não saber entrar em comunhão e diálogo como a fé cristã exige.
E, essa verdade, Deus manifestou na ressurreição de Jesus. O Deus verdadeiro não estava de acordo com a execução realizada em seu nome. Um justo foi condenado injustamente, e isso ficou evidente quando seu Filho se faz ainda mais presente depois da experiência da morte. O Deus bondoso e cheio de amor ressuscitou seu Filho dos mortos, dando provas de sua não aprovação naquele processo iníquo. Na manifestação de Deus a favor de seu Filho, foram julgados os inquisidores de Jesus, seus algozes, seus carrascos, todos os traidores que, em nome da fé, quiseram sua morte, pois a única coisa que Deus, de fato, não tolera é o des-amor, a frieza de coração, a incapacidade de amar, afinal, “Deus é amor” (1Jo 4,16). Lembremo-nos disso!





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