91. Livres em Cristo


“É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl5,1)
“Canta agora o canário na gaiola
E eu quero romper os fios que o prendem
Porque pior que a fome é o medo à liberdade"
(Paulo Gabriel)
Desde adolescente, em tempos de grupos de jovens, ouvia padre Zezinho cantar: “Eu queria voar e de tudo esquecer, no infinito morar e tranquilo viver” e alimentei esse sonho. Parece que o sonho de voar é antigo e comum a todos. Padre Zezinho não o sonhou sozinho; nem eu. Observar o voo dos pássaros e desejar fazer o mesmo é coisa antiga. O Livro dos Provérbios fala que o voo da águia é coisa enigmática (cf. Pr30,19) e que a capacidade de voar e esconder-se na fenda dos rochedos como a pomba fazia inveja nos humanos (cf. Sl55,6).
Antes de Santos Dumont ganhar o controvertido título de pai da aviação, outros sonharam o mesmo sonho. A história diz que não faltaram malucos que amarraram asas nas costas e se precipitaram do alto na tentativa suicida de alçar voos. Apesar de os estudos sobre a capacidade de voar precederem a Cristo, parece que foi com Leonardo da Vinci que as primeiras máquinas voadoras foram projetadas. Alguns tentaram balões; outros, dirigíveis; e ainda outros, planadores... “Voar, voar, voar” canta o poeta Paulinho Pedra Azul dando voz ao sonho de tantos. Mas suspeito que o sonho dos humanos seja bem maior que o de transportar-se pelos ares, mas o de sair de si mesmo, na mais profunda experiência de liberdade interior.
A busca da liberdade interior tem sido uma constante na vida humana. Talvez porque, deparados com os limites que a contingência da vida impõe, a gente se sinta meio aprisionado dentro de nós mesmos. Platão não afirmou que o corpo é o cárcere da alma? E assim como o pensador da Grécia, muitos compartilharam essa angústia, a ponto de desprezar o corpo, mortificá-lo e até desejar a morte, com o intuito de ver a alma livre, sem os entraves dos limites corporais. Certamente a fé cristã já superou esse pensamento platônico; já deixou para trás as mortificações do corpo e já entendeu que o corpo não é cárcere da alma, mas a única possibilidade de relacionar-se, de interagir, de viver... Mas nem por isso perdemos as angústias que o corpo, e com ele seus limites, nos impõe. Voar, sair de nós, tomando distância de nossos pesos, continua sendo sonho alimentado. Como canta Fagner, quereríamos um coração alado. “Ah, coração alado, desfolharei meus olhos, nesse escuro véu. São tantas ilusões perdidas na lembrança...”. Nem a razão é capaz de nos consolar. Se, por um lado, ela nos alivia – pois somos capazes de alçar voos reflexivos – por outro, nos impõe a dura consciência dos próprios limites e da morte. Nem a arte, com toda capacidade de arrebatamento que o belo possui, nos traz a liberdade desejada, apesar de ensaiá-la.
E mais dura se torna a realidade à medida que colocamos esperança em alguma possibilidade humana e ela nos decepciona. Foi o que aconteceu com Paulo de Tarso. Depois de ter experimentado os limites da Lei Judaica, encontrou em Cristo a liberdade procurada. A Torah, por mais humanizadora que fosse, não fora capaz de fazê-lo alçar voos. Foi no amor de Cristo que o Fariseu de Tarso descobriu a liberdade e escreveu “É para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). Tendo passado pela libertação que o Ressuscitado possibilita, Paulo entendeu a escravidão que a Lei impunha. Preceitos, regras, rituais... Tudo ficou relativizado em Cristo que o amou e o ensinou a amar. E seu coração ganhou asas, porque, se o coração não é alado, o amor o é. Basta deixar-nos conduzir por ele. João Júnior escreveu com maestria essa experiência:
Quando sobre as asas do amor,
deixa-te, abandona-te, confia-te;
e permita que te leve
por onde ele mesmo quiser.
E a graça de deixar-se conduzir
ensinar-te-á que,
muito maior do que teus sonhos,
teus desejos secretos,
tuas esperas inconfessas,
é a generosidade do amor,
em sua inesgotável capacidade de,
sempre de novo,
te surpreender.
Se não podemos voar como as águias nas alturas dos picos mais longínquos, podemos, no entanto, voar sobre as asas do amor em experiências de infinitudes. Em cada abraço, em cada beijo, em cada gesto de ternura, em cada palavra dita com mansidão, em cada presença que acolhe e restaura, experimentamos a liberdade sonhada. O Nazareno – que, na mais plena liberdade, doou sua vida por amor a nós – se faz presente em cada gesto de amor nos libertando para amar. Aceitemos seu convite! Voemos alto sobre as asas do amor!
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