80. Continuar a crer e confiar


“Não havia talvez sepulturas no Egito,
e por isso nos tirastes de lá para morrermos no deserto?
Por que nos tratastes assim, fazendo-nos sair do Egito?” (Ex 14,11)
“Dança!
Dança com tuas pernas,
com tua alegria
e com teu caminhar!
Dança!
Dança porque espera
que o Deus da vida nos libertará”
(tradução de Danza a mi pais, canto peruano)
Na experiência de busca de sua liberdade, o povo hebreu viveu emoções intensas. Dor e escravidão no Egito; dificuldades para deixar a terra da opressão; medo, murmurações e inseguranças ao longo do caminho.
Diante do Mar Vermelho, sob ameaça do faraó que vem à sua procura, o povo hebreu questiona Moisés: “Não havia talvez sepulturas no Egito, e por isso nos tirastes de lá para morrermos no deserto? Por que nos tratastes assim, fazendo-nos sair do Egito?” (Ex 14,11). Não é a primeira vez que aparece questionamento semelhante no livro do Êxodo. Queixa parecida é feita pelos egípcios ao se darem conta de que perderam seus preciosos escravos, percepção que os põe à busca daqueles que saíram vitoriosos: “Eles disseram: Que isto que fizemos, deixando Israel sair de nosso serviço?” (Ex 14,5). Apesar de situações distintas, tanto o povo hebreu quanto o povo egípcio vive o mesmo drama. Depois da decisão tomada, tendo visto as consequências da decisão, hora de repensar: “O que foi que fizemos?”.
Repensar as decisões é processo muito comum e até necessário, mas pode ser perigoso quando o fazemos sob a ameaça do medo. Vejamos os hebreus. Fazia pouco tempo,a ação libertadora de Deus dobrara os joelhos dos egípcios. Deus mostrara o quanto se importava com sua gente, cuidando deles, manifestando-se próximo e não indiferente. Tanto cuidado e tanto amor havia motivado o êxodo, a decisão de abandonar a escravidão. Mas, quando a primeira dificuldade é encontrada no caminho, o povo hebreu se esquece daquilo que viveu; a salvação perde sua nitidez e o medo do perigo faz duvidar da ação divina: o Deus libertador parece um Deus enganador. Israel fica hipnotizado pelo medo de morrer e esquece tudo. Bastou um susto, um imprevisto no caminho, e o modo como Deus os salvou do Egito caiu no esquecimento.
A experiência do povo hebreu nos remete a nossos dramas mais profundos. Também nós, diante das intempéries da vida, costumamos esquecer as marcantes experiências de fé que vivemos, a presença de Deus que experimentamos e nos rebelamos contra ele. Deus não nos agrada mais, não é como esperávamos; o modo como Deus nos conduz não é o imaginado. Por isso, dizemos: “Chega! Basta! O que você fez conosco, Deus?”. O medo experimentado ameaça a confiança no Libertador. Deus, que nos tirou de nossos egitos para nos salvar, parece nos decepcionar.
Se o leitor do livro do Êxodo avança no texto, logo logo percebe que não é bem assim. Para continuar a viver a salvação experimentada, é preciso continuar a crer e confiar. A fé deve ser reafirmada a cada passo do caminho. A fé do ontem precisa ser aumentada no hoje para ser sustento na caminhada e produzir frutos no amanhã. Querer voltar ao Egito não é apenas falta de fé, mas também de memória e ingratidão com o Deus da vida. O povo hebreu não se engana ao falar do Egito e suas tumbas:“Não havia ali sepulturas?...” O Egito é, para os hebreus, um país de morte. Mas, apesar da morte, é seguro, por isso desejado de novo. Como os hebreus, também nós desejamos voltar atrás em nossas decisões quando essas nos exigem mais força, mais coragem, mais ousadia para prosseguir o caminho. Talvez teria sido melhor nem começar o itinerário aventureiro rumo à liberdade; nos sepulcros de nosso comodismo, descansamos em paz.
Ainda bem que caminhamos iluminados pela fé. Ela nos faz compreender nossa realidade com um novo olhar. Moisés disse ao povo: “Não temais!”. E, recobrando ânimo, o povo prosseguir rumo à Terra de seus sonhos. É preciso confiar! A fé impele ao abandono confiante nas mãos de alguém que é bem maior do que nós; ela torna possível o que pelas nossas forças não seria possível. Ela nos faz ver uma estrada até então desconhecida, um caminho não percebido antes, uma saída não avistada. É preciso confiar; enfrentar o mar e passar confiante em meio às dificuldades. E, em vez de lamentação, que tal o canto confiante, a dança da alegria, a festa das pequenas vitórias ao longo do caminho? Como disse a canção: “Dança! Dança com suas penas, com sua alegria e com seu caminhar!”.
Se hoje estamos nos sentindo enganados por Deus, a ponto de perguntarmos: “O que você fez comigo, meu Deus?”, somos chamados a não temer, a crescer na nossa fé e perceber uma nova estrada que se abre. A fé abre caminhos impensáveis, basta continuar a crer e confiar.
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