79. Colher de pau é teologia
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10.12.2020 | 4 minutos de leitura

Diversos

Todos os dias os noticiários informam casos envolvendo a violência contra a mulher. A criatividade daqueles que cometem os crimes é surpreendente. Mas a sociedade permanece sem compreender o que faz com que um pai, um esposo, um filho, um namorado, um vizinho, um desconhecido, decida-se por agredir e matar uma mulher. Muitos motivos são apresentados pelos criminosos para justificar o comportamento que adotaram, mas, a maioria deles foi, de alguma forma, contrariada em suas expectativas com relação à alguma mulher. E aí, não tendo nada além de um gesto de violência para oferecer, marcam no corpo e na alma de muitas de nós a crueldade dos seus atos.
A violência está presente no mundo como um sistema muito bem organizado. Em nossos dias, ela é praticada sem nenhuma ética e não há nenhuma expectativa de proporcionalidade em sua prática. Alguém simplesmente decide fazer o mal pelo mal. É tão corriqueira que podemos considerá-la já engendrada em nossa prática social, como um hábito ou um etos entre nós. Mas um pouquinho de humanidade servirá para perceber a irracionalidade da banalização da violência para a nossa espécie. Quais são os ganhos de nos matarmos uns aos outros? E quando migramos do aspecto macro da violência para o micro da violência contra a mulher também nos fazemos pergunta semelhante. Mas, distantes de uma resposta absoluta, é preciso pontuar que se tornou uma cultura cínica entre nós, precisamente pela compreensão que se tem da mulher como um ser fraco e dependente.
Sendo mulher, viver não é preciso. Mas é preciso salientar sempre e uma vez mais que o arcabouço cultural do patriarcalismo constitui o complexo tecido social de legitimação da violência contra a mulher porque, neste sistema, ela não é nada além de um objeto que se pode descartar depois de ser usada ou depois de \"decepcionar\" o homem em seus ideais e expectativas. É, pois, fundamental destacar também que os sistemas religiosos que alavancaram a construção do ocidente judaico-cristão são tanto formados e movidos pele sistema de absolutização da figura masculina em detrimento da feminina quanto motor de bombeamento dos fluídos que mantêm o patriarcalismo com robustez em nossos dias e operando violências diversas contra as mulheres.
Por essa razão, não há outra saída para se romper com o sistema de violência contra as mulheres que a derrubada definitiva do paradigma do patriarcalismo. E como nenhum sistema vem abaixo sem a conversão do humano a outro horizonte de possibilidade, faz-se urgente e necessário que homens e mulheres estejam conscientes de suas diferenças e, sobretudo, eles e elas precisam estar conscientes dos \"privilégios\" e \"prejuízos\" que ostentam nesse paradigma e, além disso, precisam estar dispostos a se desvencilhar deles, a fim de que a existência das mulheres, e também a dos homens, possa ser mais integral do que em nossos dias.
A teologia pode contribuir com esse cenário de conversão sociorreligioso à medida que também se propuser a uma conversão. De partida, precisa saber da impossibilidade de se falar de Deus sem considerar a equidade entre homens e mulheres, que é, inclusive, resultado do seu projeto de criação. Por isso, sugere-se à teologia ser feminista, pois é somente a partir desse lugar que poderá discursar sobre Deus não rejeitando nenhuma parte de sua obra. A iluminação reverbera da cruz de Jesus que rasga o véu que censura e segrega impedindo que as pessoas sejam vistas a partir de suas diferenças e de suas plenas potencialidades.
Ademais, a teologia, em sua conversão, não pode alhear-se dos acontecimentos da história. Neles deve se envolver. Por isso, dificilmente anunciará a palavra de Deus se estiver silenciada diante dos muitos crimes e violências praticados contra as mulheres. Mas como a teologia não é um organismo vivo, uma entidade, mas a leitura dos acontecimentos realizada por pessoas reais, sem a militância dessas pessoas ela a nada se converterá, a não ser ao conveniente e diabólico status quo da religião e da sociedade misógina e machista.
Por fim, de tão óbvio nem seria preciso dizer, mas como segue ignorado, as instituições religiosas, a partir das quais as vozes teológicas normalmente são proferidas, devem dar elas mesmas o exemplo de não violência contra as mulheres, a partir de uma leitura honesta das escrituras sagradas da fé que dizem respeito às mulheres e da igual participação feminina nos espaços de tomada de decisão coletiva, bem como nos espaços de orientação, ensino e instrução dos que procuram a religião acreditando poder viver nela como que em uma comunidade na qual não há estereótipos, porque todos são um em Cristo Jesus (cf. Gl 3,28).
A violência está presente no mundo como um sistema muito bem organizado. Em nossos dias, ela é praticada sem nenhuma ética e não há nenhuma expectativa de proporcionalidade em sua prática. Alguém simplesmente decide fazer o mal pelo mal. É tão corriqueira que podemos considerá-la já engendrada em nossa prática social, como um hábito ou um etos entre nós. Mas um pouquinho de humanidade servirá para perceber a irracionalidade da banalização da violência para a nossa espécie. Quais são os ganhos de nos matarmos uns aos outros? E quando migramos do aspecto macro da violência para o micro da violência contra a mulher também nos fazemos pergunta semelhante. Mas, distantes de uma resposta absoluta, é preciso pontuar que se tornou uma cultura cínica entre nós, precisamente pela compreensão que se tem da mulher como um ser fraco e dependente.
Sendo mulher, viver não é preciso. Mas é preciso salientar sempre e uma vez mais que o arcabouço cultural do patriarcalismo constitui o complexo tecido social de legitimação da violência contra a mulher porque, neste sistema, ela não é nada além de um objeto que se pode descartar depois de ser usada ou depois de \"decepcionar\" o homem em seus ideais e expectativas. É, pois, fundamental destacar também que os sistemas religiosos que alavancaram a construção do ocidente judaico-cristão são tanto formados e movidos pele sistema de absolutização da figura masculina em detrimento da feminina quanto motor de bombeamento dos fluídos que mantêm o patriarcalismo com robustez em nossos dias e operando violências diversas contra as mulheres.
Por essa razão, não há outra saída para se romper com o sistema de violência contra as mulheres que a derrubada definitiva do paradigma do patriarcalismo. E como nenhum sistema vem abaixo sem a conversão do humano a outro horizonte de possibilidade, faz-se urgente e necessário que homens e mulheres estejam conscientes de suas diferenças e, sobretudo, eles e elas precisam estar conscientes dos \"privilégios\" e \"prejuízos\" que ostentam nesse paradigma e, além disso, precisam estar dispostos a se desvencilhar deles, a fim de que a existência das mulheres, e também a dos homens, possa ser mais integral do que em nossos dias.
A teologia pode contribuir com esse cenário de conversão sociorreligioso à medida que também se propuser a uma conversão. De partida, precisa saber da impossibilidade de se falar de Deus sem considerar a equidade entre homens e mulheres, que é, inclusive, resultado do seu projeto de criação. Por isso, sugere-se à teologia ser feminista, pois é somente a partir desse lugar que poderá discursar sobre Deus não rejeitando nenhuma parte de sua obra. A iluminação reverbera da cruz de Jesus que rasga o véu que censura e segrega impedindo que as pessoas sejam vistas a partir de suas diferenças e de suas plenas potencialidades.
Ademais, a teologia, em sua conversão, não pode alhear-se dos acontecimentos da história. Neles deve se envolver. Por isso, dificilmente anunciará a palavra de Deus se estiver silenciada diante dos muitos crimes e violências praticados contra as mulheres. Mas como a teologia não é um organismo vivo, uma entidade, mas a leitura dos acontecimentos realizada por pessoas reais, sem a militância dessas pessoas ela a nada se converterá, a não ser ao conveniente e diabólico status quo da religião e da sociedade misógina e machista.
Por fim, de tão óbvio nem seria preciso dizer, mas como segue ignorado, as instituições religiosas, a partir das quais as vozes teológicas normalmente são proferidas, devem dar elas mesmas o exemplo de não violência contra as mulheres, a partir de uma leitura honesta das escrituras sagradas da fé que dizem respeito às mulheres e da igual participação feminina nos espaços de tomada de decisão coletiva, bem como nos espaços de orientação, ensino e instrução dos que procuram a religião acreditando poder viver nela como que em uma comunidade na qual não há estereótipos, porque todos são um em Cristo Jesus (cf. Gl 3,28).
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