80. Aterrador mistério
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14.12.2020 | 11 minutos de leitura

Diversos

No dia 06 de dezembro vamos celebrar o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres. O grande objetivo desse dia é sensibilizar, mobilizar e envolver os homens nessa luta, fazendo-os reconhecer as diversas faces da violência contra a mulher: social, psicológica e sexual. É preciso falar disso ainda hoje, porque os dados são estarrecedores. Uma mulher morre a cada sete horas pelo simples fato de ser mulher, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O Brasil é o 5º país no ranking mundial do feminicídio. Além disso, uma mulher sofre violência doméstica a cada dois minutos e, só em 2018, foram registrados 263.067 casos de lesão corporal dentro da lei Maria da Penha. O Brasil também bateu os recordes em casos de estupro chegando à média de 180 crimes por dia, sendo que em 81,8% dos casos, as vítimas eram mulheres. O país vive uma pandemia de violência sexual contra menores; meninas de até 13 anos perfazem 53,8% dos casos e os agressores são conhecidos das vítimas, em sua maioria parentes próximos, familiares, vizinhos e amigos. A violência psicológica também cresce anualmente: constrangimentos, ofensas, humilhações verbais, gaslighting (manipulação) ?\" que é quando o homem põe em dúvida tudo que a mulher diz e pensa, menosprezando-a, fazendo-a duvidar de si mesma, desgastando sua autoestima e autoconfiança. E, é claro, sem falar nos assédios sexuais em ambiente de trabalho, na violência obstétrica na hora do parto ou nas mulheres trans que também são assassinadas; uma em cada três dias, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Segundo a ONG Transgender Europe, o Brasil é o país com maior número de assassinatos de travestis e trans de todo o mundo.
Nós poderíamos nos perguntar: de onde vem esse ódio contra a mulher? É difícil rastreá-lo, porque ele tem muitos lados, mas certamente ele é uma construção histórico-cultural, já que a história é feita por machos, de machos, para machos; homens cis, héteros, brancos e ricos. Essa história também é sustentada por uma ideologia falocêntrica, que esconde, segundo a psicanalista Rose Maria Muraro, uma inveja ancestral da mulher e de sua abertura à geração. Os psicanalistas também dão testemunho de um escândalo diante do feminino, um escândalo diante do segredo da mulher que não tem um falo, que não goza como um homem, que não serve ao homem como sua metade, o que faz dela um continente desconhecido. Por causa desse escândalo inescrutável, a mulher é desfigurada, aprisionada no espaço domiciliar, associada à virulência das emoções que, inclusive, deveriam ser controladas pela razão (tipicamente masculina). Apesar de ser causa de desejo do homem, a mulher é também sua fonte de terror. E todo o ódio contra a mulher seria transmitido culturalmente, a partir da tipificação de gênero, o processo pelo qual aprendemos os comportamentos que a cultura considera apropriado para cada sexo. Ou seja: não há apenas um diferencial biológico que o homem jamais dá conta de assimilar, mas também uma construção histórica de gênero que o homem busca sustentar e que evidentemente o beneficia.
A religião serve a este intento, não raras vezes; ao invés de proteger as mulheres cis ou trans contra a violência de gênero, funciona como fonte de violência. Leituras fundamentalistas do texto bíblico, feitas especialmente por movimentos reacionários integristas e ultradireitistas, ou mesmo pelos movimentos neopentecostais, católicos ou protestantes, assumem um rosto virulento contra as mulheres, fazendo delas a \"auxiliar\" do homem, \"a salvadora\" da casa, insistindo para que elas mantenham situações de violência familiar em nome da família e da religião. Mas também as posturas tradicionalistas, moralistas de muitos clérigos não está longe de ser uma fonte de violência. Lembro-me aqui do bispo que insistia com a senhora idosa dizendo-lhe que, para se manter em comunhão com a Igreja e na possibilidade de comungar, não deveria denunciar o marido que a agredia há oito anos. Um absurdo, em nome da norma religiosa.
Contudo, a religião cristã seria fundamentalmente machista? Ora, sabemos muito bem que os escritos bíblicos estão eivados de posições androcêntricas, ou de tensões entre o masculino e o feminino que dão prova de que os textos têm contexto, têm uma situação histórica, possuem erros e de que a letra não deve ser tomada como sagrada, por si mesma. Também sabemos que os tradutores dos textos bíblicos são muitas vezes constrangidos a repetir traduções que pouco ou nada têm a ver com as línguas maternas da Escritura. Sabemos também que quem possui autorização para interpretar as Escrituras são homens. Mas, como cristãos, precisamos voltar à figura de Jesus e a sua postura diante do feminino. E encontramos sua postura surpreendente, justamente a partir das Escrituras.
Jesus era amigo das mulheres (Cf. Lc 8, 1-3). Não se constrangia com o feminino, com o toque, mesmo daquelas consideradas mais pecadoras (Cf. Lc 7, 36-50), além de não afiançar posturas machistas, fazendo interpretações das Escrituras que beneficiavam a mulher, mostrando um Deus que tem entranhas de misericórdia; um Deus maternal. A propósito das interpretações de Jesus, queremos levantar aqui um texto do evangelho de Marcos em que o evangelista mostra Jesus desafiando a lei e manifestando o cuidado para com a mulher. É o texto emblemático sobre a carta de divórcio (Mc 10, 1-12), em que alguns fariseus perguntam a Jesus se é lícito dar carta de divórcio e despedir a mulher. Pronto: aí estaria a justificativa, segundo muitos teólogos, para sustentar a indissolubilidade do matrimônio; que uma vez unidos, homem e mulher devem permanecer para sempre juntos, apesar dos pesares, apesar dos tapas, bofetões e cusparadas, heroicamente, mesmo em situações de desprezo e indignidade; porque Deus uniu...
Na realidade, o texto está muito bem construído e diz-nos que os fariseus vieram para tentar Jesus (como Satanás). Os muito religiosos às vezes ocupam mesmo esta função, a de satanizar a vida dos outros. A questão que eles propõem é controversa e a resposta de Jesus, qualquer que fosse, o poria em maus lençóis. Se aprovasse o divórcio, como sabemos, Jesus atentaria contra uma instituição considerada sagrada; se o reprovasse, estaria atentando contra a lei mosaica. Não havia escapatória, não fosse a habilidade de Jesus em desconstruir ciladas, apresentando outra pergunta: \"que diz o preceito de Moisés? \" (v.3). Os interlocutores, então, respondem sobre a justiça de despedir uma mulher: \"Moisés permitiu escrever um atestado de divórcio e despedi-la\". (v.4). Os fariseus conhecem as Sagradas Escrituras, sabem que o livro do Deuteronômio realmente diz: \"Se, depois que um homem tiver tomado uma mulher tornando-se seu marido, esta não encontra mais graça a seus olhos, porque viu nela uma coisa feia, e por conseguinte ele lhe escrever uma ata de divórcio...; o primeiro marido que a tinha repudiado não poderá voltar a retomá-la para torná-la a sua mulher\" (Cf. Dt 24, 1a.4a). Notem, pois, que os fariseus conhecem a citação de despedir a mulher (1a), mas esquecem outra parte do texto legislativo (4a) que impõe que a mulher repudiada goze de liberdade em relação a seu ex-marido. O olhar enviesado dos fariseus é só um sintoma do problema mais radical; a dureza de coração, como veremos a seguir.
De fato, na época de Jesus, a mulher não era considerada como pessoa. Ela é elencada entre os bens do marido. E muitos crimes contra a propriedade citados na Escritura incluem a mulher como propriedade do homem. Solteira, ela pertence ao pai; casada, ela pertence ao marido; viúva, ela pertence ao filho primogênito; sem filhos, está desprotegida e sem representação; divorciada, está em situação de indignidade. Quando repudiada por seu marido, a mulher volta à casa do pai e tentará outro casamento, correndo o risco de jamais se casar de novo, já que havia sido repudiada antes. A família perde o dote do primeiro casamento; um eventual segundo matrimônio já não era garantia de dote algum. Depois, a leitura fundamentalista do texto permitia despedir a mulher por qualquer \"coisa feia\". Elas estavam desprotegidas já que o marido poderia se desinteressar dela por qualquer razão, desde que deixasse de \"ver graça\" nela. Não era raro, portanto, que muitos se valessem disso para se divorciar de suas mulheres e dar vazão a seus próprios interesses. Mulheres doentes, fragilizadas por causas de alguma circunstância da vida ficavam também desprotegidas. Sobrava-lhes, depois de repudiadas, os caminhos da prostituição, da mendicância, da exclusão.
Para Jesus é a dureza de coração (sklerocardia) o que compromete o projeto originário de Deus; contra essa dureza, Jesus recorda que homem e mulher são uma só carne. O projeto de Deus não é, seguramente, a fusão entre o homem e a mulher, que um e outro se tornem um só (quem deixaria de ser para que possam ser um: o homem ou a mulher? Já o sabemos bem!), mas é a de realizar um recíproco empenho de amor, de con-vivência (uma só carne!), onde há respeito integral de um para com o outro. A carta de repúdio ou ata de divórcio era um paliativo para uma situação de dureza: quando o empenho do amor deu lugar à violência.
Quando chega no espaço da intimidade com seus discípulos, Jesus explica que, ao dar a carta de divórcio e casar-se novamente, o homem não só comete adultério como também se torna responsável pelo adultério de sua mulher. O mesmo vale para a mulher, o que é muito interessante no horizonte da comunidade marcana, pois, dificilmente, a mulher daria carta de divórcio, se colocando em situação de grave perigo, embora casos raros assim não fossem desconhecidos. Mas o evangelista, com isso, acaba igualando o direito do homem e da mulher.
A leitura posterior desse texto e a cristalização de uma certa hermenêutica, somada a desenvolvimentos posteriores, vai fazer dele uma justificativa para manter de pé casamentos que já ruíram. O que interessa, entretanto, é que no relato marcano a impossibilidade do divórcio não está em função de afirmar uma indissolubilidade do matrimônio, mas de afirmar a dignidade da mulher, que ela não seja desprezada nem colocada em risco, que ela não seja tratada como nada, um joguete na mão de machos. Além disso, o texto nos leva a compreender que o verdadeiro laço entre mulher e homem não é um contrato ou um processo, sequer uma promessa na frente de assistentes eclesiásticos, mas o amor-respeito celebrado cotidianamente.
O cristianismo tem sim, caso se mantenha ligado ao seu fundamento, bons exemplos de como as masculinidades tóxicas, o machismo e a violência à mulher podem ser superados. Isso, porque o cristianismo aponta para a humanidade do homem-Deus, como promessa de que homens e mulheres podem dialogar, a partir das diferenças e respeitar-se reciprocamente. O exemplo de Cristo revela um homem aberto às mulheres, compreensivo com sua situação e contribuindo com sua luta. Jesus reconhece a voz das mulheres e sua dignidade. E se seu olhar está voltado desse modo para o feminino é porque, em algum lugar, ele foi \"atravessado\" por suas lutas e dores. Com Jesus, portanto, é preciso lutar para que os direitos das mulheres sejam iguais aos garantidos aos homens, numa cultura machista e muitas vezes misógina. É preciso, inclusive, garantir-lhes o direito de serem outra coisa que os homens: que elas possam ser esse aterrador mistério, diante do qual um homem se faz.
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