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73. Quem pariu Covid que balance!

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04.11.2020 | 4 minutos de leitura
Tânia da Silva Mayer
Diversos
73. Quem pariu Covid que balance!
Não podemos negar que vivemos o pior momento de nossa história. O tempo que vivemos é nosso. Foi construído por nossas ações nas relações que estabelecemos com os outros, com as instituições com o meio ambiente, com Deus. Não se trata da herança desagradável recebida dos nossos pais e avós, mas do que fomos capazes de construir, conservar ou destruir até aqui. O tempo que vivemos é fruto das nossas liberdades. Tanto daquela liberdade compartilhada responsavelmente quanto daquela vivida de maneira irresponsável. O avanço e a aprimoração das tecnologias nos ajudam a colher hoje a semente lançada há pouco. Os dias fluem apressadamente e já vislumbramos o fim de um ano que nunca esperávamos ter vivido.
Mas este ano está distante de ter o seu fim. Ele ficará marcado para sempre na memória dos nossos afetos. Nossa geração, se conseguir sobreviver – é certo que muitos irão sair com vida de um ano de pandemia -, jamais se esquecerá do que se passou num ano atípico. De uma maneira ou de outra, a história desse ano será contada aos que vierem depois de nós. No entanto, este ano está distante do seu fim porque estamos longe de vislumbrar uma solução efetiva ou um tratamento para o implacável vírus que causa a Covid-19. Ademais, o que sabemos sobre esses seres é que eles necessitam das pessoas e populações para provocarem ou não uma catástrofe como essa que vivemos.
A pandemia que hoje vivemos dependeu de nós. Ainda há \"profetas\" da intervenção divina na doença, mas estão fadados aos dias do esquecimento. O modo como nos comportamos é que nos faz, somente no Brasil, sepultar mais de cento e sessenta mil vidas, aquelas que entraram para as estatísticas e aquelas que jamais serão contabilizadas por um sistema de alheamento e indiferença ao sofrimento de tantas famílias. Mas é dever pontuar que todas as estatísticas caem por terra quando a pessoa que morreu pelo contato com o vírus é alguém do seu círculo.
Não é insistência afirmar que o vírus fez a carnificina porque o ajudamos. A frase primária que vez ou outra ouvimos afirma que \"não fizemos o dever de casa\". No fundo, nossos governos foram irresponsáveis em todos os momentos. Não agiram com inteligência. Não se organizaram. Não estabeleceram uma coordenação macro para o enfretamento da crise. Não se apressaram na resolução de problemas de infraestrutura. Ficaram sentados \"no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar\". E ela chegou.
Mas é fácil imputar a culpa a outrem. Desde as origens temos agido assim, passando adiante nossas responsabilidades. O sistema social falido que arrastamos em nossas costas desde a colonização pareceu agudizar-se ainda mais. Ou será que é agora que temos a possibilidade de ver o lodaçal onde edificamos a ideia da \"pátria amada\", \"mãe gentil\" de todos os cidadãos e cidadãs desse país? Para além disso, demo-nos conta do quanto somos capazes de nutrir a indiferença a um problema comum. Nosso individualismo nos fez alheios a qualquer possibilidade de resolução coletiva desse ou de outros problemas.
Nosso alheamento do problema comum se reflete em nossas saidinhas rápidas, nossas confraternizações já não mais clandestinas, nossas celebrações religiosas piedosas, nossos encontros com os amigos queridos, nossas rodas de conversas nas esquinas, nossos passeios com candidatos, nosso ir e vir às compras de um presentinho para os queridos, entre outras ocasiões promissoras para o espalhamento do vírus entre as pessoas que amamos. Nosso distanciamento foi, é e seguirá sendo fingido, porque não sabemos mais o que significa o coletivo: \"um por todos e todos por um\". A regra é \"cada um por si e Deus por todos\". Quantos amigos e familiares precisarão morrer para começarmos a pensar o coletivo de nossas ações?
Mesmo a fé e as instituições cristãs, que poderiam convidar, numa ampla campanha nacional, porque tem inspirações evangélicas fortes para fazê-lo, as pessoas para um pensamento macro, também se vende ao individualismo e segue abrindo templos e expondo seus agentes religiosos aos riscos que todos corremos em qualquer lugar. Gostaria de ouvir o que Jesus teria dito ao povo no início da pandemia, ao longo dos últimos meses e, sobretudo, agora, quando muitos se sentem confiantes para não usar máscaras ao sul, mesmo quando o norte do mundo volta a reviver um pesadelo que parece não ter fim. E que é tão somente consequência da nossa geração que acredita apenas no mundo fictício que acontece ao redor do próprio umbigo.
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