61. O poder do amor


(A João Júnior e Fabrício por ocasião de sua ordenação diaconal)
“Entre vós não deve ser assim...” (Mc 10,43)
“Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém”.
(José Jorge Letria)
Basta um pequeno olhar sobre a história para que constatemos que os poderes são efêmeros: um a um eles se despedaçam, se desfazem como bolha de sabão. Como disse o Livro do Eclesiastes: “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecl 1,2). No atual momento político do Brasil, essa efemeridade do poder deveria fazer pensar em que bases os governos brasileiros se assentam. Basta uma suspeita, uma delação, um desentendimento para puxar o fio de tramas artisticamente bem costuradas há anos e deixar nu o rei, que, como conta a fábula, ainda pensa que veste os melhores trajes do reino. Não é a primeira vez que nossa história registra desmandos e abusos de poder tanto do executivo, quanto do legislativo e até do judiciário (para nosso maior horror!). Para nossa tristeza, isso é histórico.
Apesar de ser “vaidade das vaidades”, o poder tem corrompido a muitos e m todo lugar. O Brasil não tem exclusividade nessa questão. Nem mesmo ela é propriedade privada da política. Na religião, o cenário não é diferente. Mandar e desmandar, dizer e acontecer, proporciona um prazer inigualável a alguns, a ponto de isso se tornar a razão de suas vidas. Já estamos até acostumados – infelizmente – com esses desmandos que algumas autoridades religiosas cometem em nome de Deus, mas para seu próprio bem e em detrimento do povo sofrido.
A questão do poder sempre atormentou o povo da bíblia. Subjugado inúmeras vezes, o povo de Israel sofreu horrores nas mãos dos tiranos. Uma sequência de poderes dominadores marca sua história. Primeiro o Egito e seu glorioso faraó que oprimiu o povo com duros trabalhos. Depois a Babilônia, com Nabucodonosor, que deportou a elite e estraçalhou Jerusalém. E ainda Ciro, rei da Pérsia, com seus pesados impostos; Alexandre, da Grécia, com seu desejo de sempre mais conquistar; Roma com sua promessa de paz – tão ilusória – que veio depois destruir Jerusalém e colocar fim ao sonho daquela gente de se constituir de novo como nação.
O autor do Livro de Daniel, escrito no século II, faz uma bela leitura da história de Israel e mostra para sua gente a efemeridade do poder. Em tempos em que o rei selêuco, Antíoco IV (também intitulado Epífanes – por se entender a manifestação divina) queria ser adorado como Deus (mandou fazer uma estátua com o corpo de Zeus e seu rosto e profanou o templo de Jerusalém instalando-a lá, bem no lugar sagrado daquela gente), o autor escreve a história da pedrinha e da estátua compósita. O rei sonhou que havia uma estátua: cabeça de ouro; peito e braços de prata, ventre e coxas de bronze, canelas de ferro, e os pés eram parte de ferro e parte de barro. De repente, sem que ninguém saiba como, uma pedrinha rolou do alto da montanha, o lugar onde Deus se manifesta, e a pedra atingiu os pés da estátua, destruindo-a toda. Não ficou ouro, nem prata, nem bronze, nem ferro que conservasse sua força e sua nobreza. Tudo foi estraçalhado. Crítica ferrenha e bem elaborada faz o autor sagrado aos reinos que o precederam na história e lembra a Antíoco IV que seus pezinhos são de barro; seu reino também vai ruir.
Não faltam exemplos na história de Israel para falar deste tema: o poder, ou o abuso dele. Profetas criticaram e advertiram os juízes que se corrompiam, os sacerdotes que se encantavam com o poder religioso fazendo dele uma fonte de exploração e manipulação, os maus pastores que só queriam manipular e extorquir suas ovelhas.
Não é de se estranhar que Jesus retome o assunto. O Evangelho de Marcos não deixa escapar a chance de advertir os seguidores do Nazareno quanto ao perigo do poder. Enquanto Jesus anunciava sua paixão e morte e recomendava que seus discípulos estivessem prontos para a renúncia e o sofrimento, os filhos de Zebedeu disputavam os primeiros lugares. Jesus não perde tempo. Vai direto ao assunto: “Os chefes das nações as dominam, e os grandes fazem sentir seu poder; entre vós não deve ser assim. Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve” (Mc 10, 42-43).
Incrível perceber como o sagrado pode se tornar fonte de manipulação e poder, que esconde o desajuste de muitos. O fato de estar no seguimento de Jesus (para Marcos, os discípulos que buscam os primeiros lugares estão no caminho, ou seja, no discipulado) não isenta os seguidores dos mesmos erros e desacertos que qualquer outra pessoa, em qualquer outro lugar. É só a gente abrir jornais e revistas, ou um site de notícias, para ver estampado lá os horrores que têm acontecido no Vaticano e a luta do papa Francisco para moralizar a Cúria Romana, devolvendo à liderança da Igreja o seu papel de servidora. Não estranhamos que abusos de poder aconteçam dentro da igreja. Ficamos estupefatos, porém, que ele seja realizado em nome de Deus, em nome da fé cristã, justamente ela que ensina que o único poder a que devemos almejar é o poder do amor. “Entre vós não deve ser assim”, disse Jesus. Ele não disse que não seria; ele não disse que estaríamos isentos desse risco. Disse apenas para a gente se cuidar e não repetir os mesmos erros daqueles que não creem no seu amor transformador. Como disse José Jorge Letria, há quem encante-se “com o eco liquefeito de suas vozes comandando, decretando”. Não deveria ser o caso daqueles que assumem o ministério ordenado, seja o diaconato ou o presbiterato, exatamente para servir e não para mandar e ser servido.
Mas não é raro que um jovenzinho, vindo dos Cafundós do Judas, tendo conhecido a glória da religião, se deixe seduzir por exterioridades: vênias, trajes, luzes, rendas... E mais: estudos em Roma, diploma de teologia e filosofia e, de repente, um Zé Ninguém é um diplomado da religião, aquele que fala em nome de Deus. E ainda: o povo aos seus pés admirando seu poder sacro de perdoar pecados, de transformar pão e vinho em corpo e sangue do Senhor, de expulsar demônios... Tudo em nome de Deus, acontecendo de uma forma quase mágica depois de se ter recebido os óleos nas mãos e as mãos do bispo sobre a cabeça. De novo José Jorge Letria com seu poema Meditação sobre os poderes: “Banqueteavam-se com a pequenez de tudo quanto julgavam ser grande, com os quadros, com o fulgor novo-rico das vênias e dos protocolos”. Se o poder é sedutor; o poder sagrado ainda mais. Manipular é coisa detestável; mais detestável ainda em nome de Deus. Se algum poder deve ter o ministro ordenado, e qualquer outro discípulo de Jesus, é o poder do serviço, do amor, especialmente aos mais pequeninos. Como disse Jesus: “Entre vós não deve ser assim; quem quiser ser o maior seja aquele que vos serve...”. Maior de todos os poderes é o amor.