51. Fazer memória


Fazei isto em memória de mim! (Lc22,19)
“As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.
Mas as coisas findas
muito mais que as lindas,
essas ficarão”
(Carlos Drummond de Andrade)
A história mora em cada um de nós e cada um de nós mora na história. De alguma forma, o passado orienta nosso presente e nosso futuro. Poeticamente, alguém me disse outro dia que “o presente é ínfimo momento em que o futuro se torna passado”. Mas é nesse passado-presente que cada pessoa é capaz de se tornar sujeito de sua história. Por isso, é importante cultivar o hábito de fazer memória!
O Papa Francisco tem insistido em dizer que não podemos ser “desmemoriados”. Não podemos ter vergonha de nossa história, nossas raízes e bases. “Este hábito de fazer memória da nossa vida não é muito comum entre nós. Esquecemos as coisas, vivemos o momento e depois esquecemos a história. E cada um de nós tem uma história: uma história de graça, uma história de pecado, tantas coisas... Fazer memória sobre a nossa vida é dar glória a Deus”.
É importante mencionar que há uma diferença entre lembrar e recordar. Fernando Sabino, na obra Encontro Marcado faz referência a isso num dos diálogos entre seus personagens. Disse Eduardo:“Há diferença entre lembrar e recordar; recordar é reviver, lembrar é apenas saber. O que é recordado fica, o que é lembrado é também esquecido”.
Essa distinção escrita por Fernando Sabino nos ajuda a compreender um pouco da concepção bíblica do fazer memória. Para os judeus, fazer memória é mais do que lembrar ou ficar olhando com saudade para o passado. Não! Fazer memória é atualizar, reviver! E isso é motivo de celebrar. Também o nosso povo na alegria contagiante do carnaval costuma cantar “Recordar é viver”...
Nos relatos do Antigo Testamento, percebemos que o povo de Deus não se desliga de sua história. Desde o começo, foram cultivando o hábito de fazer memória. Frase célebre é aquela do credo deuteronomista: “Meu pai era um arameu errante. Ele desceu ao Egito com um pequeno grupo de pessoas e ali viveu e tornou-se uma grande nação, poderosa e numerosa” (Dt 26,5)
Há acontecimentos que são especiais e ficam registrados em nossa memória. Adélia Prado, no poema Para o Zé, escreve uma declaração de amor ao seu amado com ardor e beleza. “O que a memória ama fica eterno. Te amo com memória imperecível”. Só guardamos em nosso coração o que é importante e especial para nós; eternizamos as pessoas que amamos e as coisas boas que acontecem em nossa vida.
Ainda bem que, ao longo da vida, vamos aprendendo que não vale a pena eternizar as pessoas que não nos amam e os acontecimentos que nos fizeram sofrer Ainda que os maus acontecimentos permaneçam vivos em nossa memória, nosso coração aprende a não sofrer mais. Nossa memória faz referência a eles como página virada; tornam-se lição oportuna para novos aprendizados.
Não nos esqueçamos de nossa história! Que possamos olhar para nossa vida e celebrar nossas memórias, fazendo delas motivo especial para agradecer a Deus.
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