217. Pão feito em casa


“O amor tudo sofre” (1Cor 13,7)
“Amar é sofrimento de decantação;
produz ouro em pepitas”
(Adélia Prado)
Quem estiver disposto a amar deve estar disposto também a sofrer, a perder seguranças, a abrir mão de seus privilégios. Parece que amor e sofrimento são gêmeos siameses, sempre grudados, inseparavelmente unidos pela lógica da nossa contingência, pelas demarcações de nossa finitude. Muito além do amor romântico, cantado em versos e prosas, o amor real exige sacrifícios, renúncias e cuidado com o outro. Como disse Paulo Leminsk, “ai daqueles que se amaram sem saber que amar é pão feito em casa”. O amor exige trigo triturado; precisa de demorado processo de fermentação; necessita de ser amassado, socado, sovado... Não é produto que se pega nas prateleiras de supermercados, sem se importar com as mãos que o amassaram até torná-lo palatável, nutritivo e saboroso.
Em tempos de Covid-19, tenho pensado sobre o peso do amor. São tempos difíceis, que – para nós brasileiros – estão apenas começando: isolamento social, agigantamento da crise econômica, inércia e displicência dos governantes, imperícia das autoridades, atraso nas decisões importantes que podem proteger a vida, exploração comercial, fake news que só aumentam a confusão e promovem o relaxamento nas medidas protetoras. A lista é interminável. Nos países da Europa e na China, potências bem mais estabilizadas financeiramente que o Brasil, o coronavírus fez estragos: sistema de saúde falido, milhares de mortos, esgotamento dos profissionais de saúde, famílias chorando seus parentes, fileiras de caixões à espera de crematórios, comboio de caminhões do exército transportando corpos, fronteiras fechadas, crianças fora das escolas, comércio parado... um cenário de guerra. É desolador.
Para aqueles que têm coração sensível e aprenderam a amar a humanidade inteira, pois somos todos irmãos, é quase impossível dormir em paz. Os noticiários não nos deixam esquecer a tragédia humana que vivemos. 2020 vai ficar nos anais da história, pois começou com sangrias que não conseguimos estancar.
A sangria parece maior no Brasil. Crime de Brumadinho, fogo na floresta Amazônica, óleo nos mares, congelamento de gastos no campo social com a PEC da injustiça, precarização das relações trabalhistas, perda de direitos com a tal reforma da previdência, milhões de desempregados, uma população inteira de desabrigados nas ruas e um governante totalmente inepto para o cargo, com traços sérios de perversão, de retardamento mental, de irresponsabilidade e sem nenhuma capacidade de gerir a crise. A situação já era grave antes do corona; agora com um vírus que se espalha exponencialmente, o cenário é desolador. Estamos despreparados para enfrentar a guerra contra esse inimigo invisível, o vírus, e estamos imobilizados diante do atentado contra a democracia e os direitos humanos que assistimos no país.
Para quem tem recursos econômicos e ocupa lugar de privilégios na sociedade, a ameaça é grande, mas ainda há esperança: água encanada, casas limpas, estoque de álcool gel, armários abastecidos, dinheiro nos bancos, plano de saúde. Ainda que o corona não respeite status quo e nem pergunte nada sobre a reserva financeira, resta alguma proteção: a prevenção, o isolamento social, a segurança de ficar abastado até que a calamidade passe, a certeza de atendimento médico. Para os empobrecidos e abandonados da Terra, resta o descaso e a iminência da morte.
É nessa hora de catástrofe social que entendemos bem os interesses das instituições e conhecemos bem as pessoas. No Brasil, a crise é reveladora. Instituição privada que prioriza a vida, a PUC Minas foi a primeira a parar em BH. Acompanhou e monitorou a evolução da disseminação do vírus e viu suas consequências no mundo; não hesitou em colocar o semestre escolar em sistema remoto de estudos. Do mesmo modo, logo veio a orientação da CNBB, pedindo para as paróquias e dioceses não celebrarem o culto e para dispensarem os fiéis de todos os compromissos eclesiais. Não faltaram pequenos empresários, comerciantes e patrões de bom senso que imediatamente protegeram os seus funcionários e lhes garantiram seus direitos, inclusive de isolamento social. Já os bancos continuam com suas portas abertas; Edir Macedo e seus comparsas entram na justiça para conseguir liminar que lhes garanta o direito de continuar lotando seus templos; a Havan e outros estabelecimentos comerciais fazem propaganda na TV chamando o povo para grandes liquidações; os shoppings lutam para manter o comércio funcionando; o ministro da economia só pensa em salvar as finanças – coisa que jamais conseguiu antes do corona; o filhote do presidente insulta a China pois só tem olhos para seu umbigo, e seu pai – o miliciano maior – comemora o seu aniversário e de sua esposa com uma festinha. Os indiferentes seguem sua vida como se nada estivesse acontecendo: garantem seus lucros, fazem festas e deixam a casa pegar fogo. Com os pequenos, também não é muito diferente. Muitas pessoas ainda vão aos shoppings, fazem compras, se divertem nas praias, fazem churrasco na laje, celebram sua saúde e minimizam os riscos da Covid-19.
Para quem ama, o coração sangra. Corta a carne e dilacera as vísceras ver que os vulneráveis da Terra ficam ameaçados por ganância e ou irresponsabilidade social. Seria bem mais fácil fingir que não vemos e garantir nossa proteção privada. Seria melhor não alarmar a população, nem mesmo esquentar a cabeça com o que foge do nosso alcance. Mas, para quem crê no Deus de Jesus Cristo, não existe a opção de fechar os olhos, fazer vistas grossas, ignorar o óbvio. Por isso, continuamos no confinamento, procuramos agir com solidariedade, apoiamos os vulneráveis, fazemos a campanha da quarentena voluntária. E não cansamos de dizer; “fique em casa; não ponha a vida dos mais fracos em risco”. Dói amar. É preciso concordar com Adélia Prado: “Amar é sofrimento de decantação”. Espero que ao final, pelo menos produza “ouro em pepitas”. Vamos aguardar com esperança e resiliência o fim do tsunami.
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