214. Vida partilhada


“Entre eles, ninguém passava necessidade” (At 10,34)
“Não existe nada igual
ao sabor do pão partilhado”
(Antoine de Saint-Exupéry)
Num país de desiguais, partilhar o pão é gesto revolucionário. Incomoda os poderosos, ofende os incautos, desinstala os acumuladores. Há uma força intrínseca na partilha. O gesto simples e natural de partir e repartir os bens necessários à vida tem o peso de um gigante. Por isso, incomoda tanto. Dom Hélder Câmara, ícone da pobreza e do cuidado com os mais fracos, não se cansava de insistir na beleza da partilha e na sua força revolucionária. Não é à toa que foi chamado de comunista ou de marxista, títulos dos quais seus seguidores e simpatizantes são acusados até hoje. Não faltam entre os cristãos os que repudiam tudo que cheira à igualdade social, defesa de direitos humanos, ao pagamento da dívida interna do país. Pobre papa Francisco! Seus inimigos disparam flechas contra ele o tempo todo, taxando-o desses mesmos nomes. São implacáveis nas acusações; são cruéis nas palavras.
Quem são esses que se dizem cristãos, mas não enxergam a necessidade de partilhar? Muitos são pessoas que se agarraram à teologia da retribuição, cujo pilar é a meritocracia. Os líderes querem salvar o lugar de privilégio que ocupam e os pobres fiéis buscam um entorpecente para suas consciências na tentativa de diminuir a dor da vida. Argumentam que Deus é um justiceiro colérico que castiga os maus e premia os bons. Sustentados nessa teologia, não desistem de ensinar que a pobreza e o sofrimento são consequências do pecado pessoal e que a riqueza e a saúde são sinais da bênção divina.
Nada mais patético ou contrário à fé cristã. Desde o século IV antes de Cristo, a comunidade de Israel já tinha colocado em xeque essa teologia com o livro de Jó e também o do Eclesiastes. Mais à frente, o livro da Sabedoria continuou mostrando as fragilidades desse sistema teológico e, nos Evangelhos, ele conheceu sua falência definitiva.
Acontece, porém, que manipular as Escrituras em proveito próprio não é nenhuma novidade, e iludir o povo com falsas promessas é coisa típica de pseudoprofetas denunciados desde tempos antigos. A gente não deveria estranhar então que, em vez de partir o pão em tempos de crise, alguns líderes religiosos preferem garantir suas arrecadações mantendo seus cofres cheios e seus privilégios garantidos.
Assistimos com asco o que tem acontecido com as Igrejas neopentecostais no Brasil desde muito tempo. Mas, quando a gente pensa que já chegou ao fundo do poço, a liderança dessas “empresas da fé” ainda têm seu lado mais sombrio para revelar. Em plena pandemia do corona vírus, insistem em manter seus templos abertos, continuam a fazer grandes cultos, não desistem de saquear o povo e de enganá-lo com falsas promessas. Um crime sem par quando se sabe dos desastres e rastros de morte que a Covid-19 deixou na China, na Europa e em muitos outros lugares do mundo. Quando tudo vai mal e os pobres não têm socorro, ainda é preciso esfolá-lo vivo e sair ganhando em vez de solidarizar-se e partir o pão.
Interrogada sobre sua dedicação aos pobres, Madre Teresa de Calcutá teria dito que o que ela fazia era algo usual e sem complicações: “O que eu faço é simples: ponho o pão nas mesas e compartilho-o”. Pena que nem todo mundo pensa assim. O simples tornou-se difícil de executar e o complexo se tornou a meta a realizar. Para partilhar o pão, basta colocá-lo sobre a mesa e chamar os convidados. Para usurpar o pão do pobre, é preciso arquitetar esquemas, planejar golpes, decorar mentiras, fingir cegueira. E ainda, aumentar celeiros, garantir a conservação dos bens, ter muitos funcionários, fazer investimentos em seguranças. Foi o que aconteceu com o rico insensato no Evangelho de Lucas (Lc 12,16-21). Com grande colheita, não pensou em ampliar a mesa mas os celeiros de seu egoísmo Não cogitou a possibilidade de vestir e alimentar o pobre como exige a fé cristã (Mt 25,31-46), mas vestiu-se de maior ignorância e alimentou-se de sua soberba.
Para nós cristãos, no entanto, não existe a opção da avareza e da indiferença com o sofredor. Se de fato fazemos parte de uma comunidade eclesial, se fomos irmanados em Cristo, se somos filhos do mesmo Pai do Céu bom e justo para com todos, não podemos nos calar diante dos dispaltérios dos que comercializam a fé, muito menos imitar seus atos abomináveis. Qualquer atitude diferente daquela que moveu o samaritano e o fez debruçar-se sobre o pobre caído, dispensando-lhe seus bens de viagem, é pura demagogia e cinismo travestidos de fé cristã. Precisam ser denunciados e combatidos.
Em tempos de crise econômica no Brasil levada à enésima potência pela pandemia da Covid-19, somos chamados a escutar o apelo de Jesus, o Mestre de Nazaré: “Dai-lhes vós mesmos de comer (Mc 6,37). Todo exercício de fraternidade ainda é pouco nesses tempos de dor.
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