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209. Entre ditos, contraditos

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10.12.2019 | 5 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
209.  Entre ditos, contraditos

“Bem-aventurados os puros de coração


porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3)



“Quem vê cara não vê coração.”

(Dito popular)



Não é de hoje que se solidificou a certeza de que o dito popular “as aparências enganam” está corretíssimo. Por causa das aparências já taxamos alguns de loucos e os condenamos à solidão e ao abandono. Já matamos mulheres guerreiras como bruxas. Já dissemos que alguém tem cara de ladrão. Já beatificamos alguns com o argumento de que “tem cara de santo”. Já afirmamos que um retirante, pobre e nordestino jamais seria presidente do Brasil. A história, porém, mostra que esse critério de julgamento – a cara – deixa muito a desejar, para não falar que ele é injusto e perigoso. Toda vez que, motivados pelo estereótipo, avaliamos uma pessoa ou tomamos uma decisão, damos com os “burros n’água”, dito popular para dizer que a decisão foi equivocada.


Os Evangelhos insistem em nos advertir que julgar as pessoas é atitude indevida, ainda mais pela aparência, pela condição social ou por alguma prática social pouco aceitável. Verdadeiramente, essa não é uma atitude coerente com a fé cristã. No tempo de Jesus, não faltava quem condenasse o publicano, quem desprezasse o samaritano, quem quisesse a morte da prostituta. Jesus, no entanto, age de forma totalmente diferente: despreza as autoridades religiosas, que parecem santas, e acolhe o publicano, aparentemente impuro e pecador, pois sabia que “quem vê cara não vê coração”.


Tomemos como exemplo a pureza ritual, expressamente necessária para o culto no Templo em Jerusalém. Para que um varão pudesse se aproximar do altar de Deus, precisava estar em dia com os rituais de pureza. Todos externos; todos aparentes, ligados à exterioridade de gestos e ritos. Havia uma lista infindável de ordenações e de interditos a observar. Sem o cumprimento estrito desses rituais, a pessoa era considerada em estado de impureza. Um publicano, por exemplo, estava sempre impuro porque mexia com a moeda estrangeira, chamada de dinheiro iníquo. Um doente estava impuro porque trazia uma moléstia no seu corpo. Um viajante estava impuro porque comia alimentos que nem sempre eram preparados dentro das normas de pureza prescritas pela Torá. Quem curtia couro estava impuro; quem não lavasse as mãos conforme o ritual antes de se alimentar estava impuro; quem tocasse num morto ou no sangue – até numa mulher menstruada – estava impuro. Tanta exigência exterior impedia a pureza real, aquela do coração. Assim, havia mais gente impura que pura; a pureza tornara-se uma meta inatingível.


Em Mateus, para surpresa dos leitores, Jesus coloca no topo das bem-aventuranças não os puros legais, mas os puros de coração. A estes é feita uma promessa encantadora: “deles é o reino dos céus”. O deslocamento da pureza de gestos rituais para uma atitude interior é considerada uma novidade jesuânica. É bem verdade que o salmista já tinha dito que entrará no santuário do Senhor aquele que tem as mãos puras e o coração limpo (Sl 15,1-2), mas continuava vigorando uma mentalidade religiosa em que a pureza estava ligada a cumprimentos de preceitos, como aparece nas leis do puro e impuro. em Lv 11–15. Jesus rompe com a cartilha de pureza do judaísmo, inaugurando outro tipo de pureza: aquela que vem da interioridade.


Se fosse hoje, talvez Jesus usasse o dito popular “o hábito não faz o monge”, para dizer que a pureza exterior não garante a santidade. Tem muita gente aparentemente boníssima que é capaz de males horrendos. É o caso de muitos colarinhos brancos; pessoas distintas e bem apessoadas, diria minha vó, que, devido aos seus privilégios sociais, deveriam ser bem-educadas, honestas e confiáveis, mas não o são: uma podridão fétida lhes habita, apesar de seus caros perfumes. “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento” ou “cara de mel, coração de fel”. Melhor não confiar nas aparências.


Há poucos dias, fomos surpreendidos com a nomeação de um negro racista para a presidência do Instituto Palmares[1], criado exatamente para preservar a cultura negra e combater o racismo. Estranho? “Nem tudo que reluz é ouro”. Não basta ser negro para honrar Zumbi, nem para se alistar na militância negra. Não basta ter pele escura e cabelo sarará para ser negro. Negritude é um modo de ser e de viver, de se entender na sociedade e de pertencer a um povo. É consciência da luta dos antepassados, dos desprezos e abusos sofridos pelos que nos precederam. Negritude não se define pelo teor de melanina na pele, mas pelo teor de vergonha na cara, pela quantidade de orgulho que se tem de seus ancestrais e pela coragem de não abaixar a cabeça para os brancos mandatários. Ser negro é cor de pele, é pertença a um povo, é raça, mas é ainda mais um modo de ser, é ter consciência de sua história e do lugar de exclusão que se ocupa na sociedade. Se como afirma o dito popular “nem todo branco é farinha”, talvez pudéssemos criar outro: “nem todo negro é zumbi”.


Um negro racista deveria nos fazer corar de vergonha, mas – na atualidade – não nos envergonhamos mais de qualquer coisa. Perdemos a capacidade de nos estarrecer; acostumamo-nos ao contraditório, pois as contradições são frequentes. Quem não conhece um cristão sem evangelho, um gay homofóbico, uma mulher machista ou um presidente da república que bate continência para bandeira estrangeira? No caso dos cristãos, tal incoerência custa o preço da fé de muitos outros, pois o testemunho é a força evangelizadora e propulsora da fé cristã. A questão é: ser cristão, como ser negro, é algo bem mais profundo, diz respeito à intimidade do coração e não às aparências. Afinal, “o essencial é invisível aos olhos” (Exupéry).


[1] Notícias mais recentes mostram que a justiça suspendeu sua nomeação.





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