185. A visita indesejada


“Lembra-te do teu criador... antes que se rompa o cordão de prata e se despedace a taça de ouro, antes que a jarra se quebre na fonte e a roldana se arrebente no poço” (Ecl 12,1.6)
“Tu vens, tu vens,
Eu já escuto os teus sinais”
(Alceu Valença)
Todo mundo já recebeu uma visita inesperada, aquela que chega de mansinho e vai se instalando em hora inoportuna. A gente estava com o roteiro do dia feito, tudo planejadinho, e de repente, lá vem aquele amigo ou aquele parente distante apontando a cara no portão. O jeito é abrir a porta e acolher. E fazer do momento indesejado uma boa ocasião de convivência e fraternidade.
Tem coisas na vida que não pedem licença para fazer parte de nosso cotidiano. Simplesmente chegam e forçam um espaço, obrigando-nos a reorganizar a vida, os valores, os conceitos... É o caso da doença, que, quase sempre, chega sem avisar. O desemprego também vem ser convidado. A crise se instala e a gente nem sabe como. A relação se desgasta e ficamos surpresos quando percebemos que não tem mais volta. A morte, a dor e a desventura vêm brincar em nosso quintal, mesmo quando não estamos para brincadeiras. E pegam a gente com o peito nu e o cabelo ao vento, desprevenidos para a batalha que se instaura.
Ainda bem que o que não nos falta é capacidade criativa para nos reinventar. Em cada solavanco da tristeza, nos reajeitarmos no bonde da vida. A cada sacudida sofremos, a gente descobre que tudo pode ser diferente, que há outras possibilidades de ser feliz. Há sempre um plano B ou C ou Z à espera de nossa força interior para ser colocado em prática, quando o plano A se desmoronou feito castelo de areia. O segredo é continuar sonhando, mesmo quando já ouvimos ao longe os sinos da catedral anunciando a passagem do cortejo fúnebre pelas ruas da cidade. Depois do soar melancólico do sino, haverá outras badaladas a serem soadas, propalando a alvorada que celebra a alegria da vida.
É preciso confiar, acreditar e poetizar. Há sempre uma beleza a ser descoberta sob as cinzas tristes que a fogueira da vida nos reservou. Chorar não resolve. Ficar revoltado não conserta o estrago. Como diz o ditado: “Agora, Inês é morta”. Vamos ter de fazer os rituais fúnebres, organizar o velório, enterrar o defunto... E recomeçar sem mágoas, se é possível recomeçar.
A tragicidade da vida não é novidade para os cristãos. Apesar de uns se iludirem dizendo que “Deus é mais", que “Deus está no comando”, que “quando Deus age, ninguém pode impedir”, o cristão sabe que a vida é cheia de tribulações, derrotas e aniquilamentos. O cristão sabe que essa vida é passageira, pura ilusão e que uma hora a gente vai ter de dar conta dela, num ajuste final com a gente mesmo, com os nossos queridos e o com o Deus da vida.
Não falta nas escrituras cristãs textos que nos previnam sobre a chegada da visita inesperada. Escreveu poeticamente Qohélet. O cordão de prata vai se romper; a jarra vai se quebrar na fonte, bem na hora de colher a água cristalina, depois de todo o trajeto doloroso feito até a nascente. A roldana vai se romper no poço. E vamos voltar ao pó da terra, de onde viemos.
E aí, quando chegar a hora, fazer o que? Na linguagem metafórica de Alceu Valença, feliz quem tem “o sol quarando as roupas no varal”. Na linguagem da fé cristã, feliz quem expôs sua vida á luz de seu criador, sol da vida, antes que viesse o tempo da aflição (cf. Ecl 12,1).
Melhor assumir essa tragicidade da existência. Pode ser numa manhã de domingo, pode ser numa noite escura e solitária. A vida vai se romper e vamos nos deparar com nossa verdade mais profunda, com nossos fantasmas mais gigantes ou com nossas esperanças mais formosas. Tomara que, como o pobrezinho de Assis, estejamos preparados para chamar a indesejada morte de irmã. Tomara que estejamos prontos para abraçá-la como convém aos que têm fé, aos que viveram o amor, aos que não viveram só para si mas para os outros. Enquanto isso, cantamos com Alceu Valença: “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais”.
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