169. Sagrado ócio


“Pois neste dia Deus repousou” (Gn 2,3)
“Um velho calção de banho,
o dia pra vadiar,
um mar que não tem tamanho
e um arco-íris no ar”
(Vinícius de Moraes)
Que o descanso é coisa sagrada, parece não haver dúvida. Até Deus descansou no sétimo dia, depois de seis dias de peleja na criação do mundo. O antropomorfismo bíblico – que insiste em dar formas e características humanas a Deus – deu-lhe também o direito do descanso. Sábio esse povo da bíblia! Desde tempos antigos entendeu que “ninguém é de ferro”, como dizia minha mãe.
A vida se tornou muito agitada. Temos muitos negócios a gerir. Muitos afazeres a realizar. Muitos compromissos a cumprir. Muita atividade para ser executada em pouco tempo. Com a novas tecnologias, tudo ficou muito rápido. Nem bem mandamos uma mensagem e ela já chegou e já foi respondida e já exige correspondência. Em tempos idos, escrevíamos uma carta e ficávamos à espera da resposta. Dias de intervalo entre uma mensagem e outra. Havia tempo para gestar as ideias e fazer planos. Agora, não temos mais tempo para pensar e sentir os acontecimentos; nem temos tempo para administrar os afetos. Uma mensagem sucede a outra e, não raras vezes, nos arrependemos da mensagem enviada ou postada. Mas quase sempre é tarde para consertar o estrago. Em socorro a esse nosso desespero, parece que o Whatsapp criou a alternativa de apagar as mensagens enviadas antes de serem lidas por seus destinatários. Ainda não utilizei o recurso, mas não sei se resolve ou se cria outro problema... Em todo caso, a tecnologia vai se reinventando na tentativa de facilitar a vida, como se isso bastasse para nos arrancar o fardo dos dias.
Essa agitação toda adoece. Estamos plugados, conectados, on line, o tempo todo. É adoecedor. Precisamos de pausa, de um dia pra vadiar, como cantou Vinícius de Moraes. Desacelerar e ficar na maior vagareza... Nada de compromissos, como escreveu Fernando Pessoa “Ai, que prazer, ter um livro pra ler e não o fazer”. Não se trata de lazer ou diversão, o que também é bom e necessário. Trata-se de um tempo para se recompor, para se re-energizar, para desacelerar, para ficar à toa, sem fazer nada, só dando tempo ao corpo no seu processo sábio de reconstrução de si. Na minha terra dizemos “ficar panguando”, sem fazer nada... Não sei se esse verbo existe, não consultei o Aurélio, mas sei que “panguar” é necessário.
O corpo – sempre sábio –, quando exaurido, avisa que vai falir. Os membros começam a doer, a cabeça começa a falhar... Como disse Rubem Alves, “o corpo, ele sabe sem saber”. Na sua sabedoria, reclama o que é de direito e fala por meio da dor. Dói tudo: cabeça, pés, coluna... Dói por fora e por dentro. Dói assustadoramente. É o corpo pedindo parada, repouso, descanso, prazo para revisão. Como um carro, a máquina humana precisa de parada para trocar o óleo da esperança, lubrificar com a fé cada peça interna, testar os freios dos projetos, fazer limpeza nos cabos das relações e trocar pequenas peças do maquinário... No ócio, o corpo joga fora as toxinas e fabrica hormônios do bem-estar. A máquina humana é potente, mas precisa de cuidados para continuar rodando nas estradas da vida. É isso ou pane geral.
Nem sempre é fácil parar. Sei bem disso. Somos obrigados a um estilo de vida que não permite intervalos de ócio. Às vezes, o esforço para frear a vida e dar uma pausa é maior que para ficar forçando a máquina. Parece estranho, mas até para tirar férias – em alguns casos – é preciso coragem, força. O corpo fica tão desgovernado que não consegue parar; se frear, capota. Aí, sem muita opção, continuamos o ritmo frenético dos dias, sem o direito ao ócio curador.
Além disso, num país de alguns poucos privilegiados como o nosso, a grande maioria das pessoas tem jornada dupla: trabalha e estuda, tem 40 horas semanais no emprego mais uma jornada pesada junto da família, cuidando de filhos, pais idosos etc. Largamos um trabalho para pegar outro. Saímos de uma jornada árdua para entrar em outra em casa. Jornada dupla ou tripla é o que fazemos. Para ter direito ao ócio, precisamos de alguém que assuma o plantão da vida em nosso lugar. Isso exige também altos gastos e nem todos dispõem de recursos financeiros. Fica caro descansar, pois é preciso sair da rotina, viajar para um recanto, um refúgio qualquer. Em alguns casos, em casa não se descansa. Então, o ócio tornou-se direito só dos ricos – ou dos rebeldes, aqueles que não se deixam aprisionar pelo sistema. Uma pena! Muita saúde pode advir de uns dias de descanso. Poderíamos evitar muitos medicamentos e outros tratamentos complicados. No ócio, a coisificação dá lugar à humanização. A gente vira gente de novo. Estou certa de que o ócio não é só criativo, mas é curativo. Ficar de pernas para o ar é mais que pura vagabundagem; é a mais suprema necessidade de preservação da vida.
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