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146.Cristãos (des)esperançosos

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22.08.2017 | 4 minutos de leitura
Rodolfo  Lourenço
Crônicas
146.Cristãos (des)esperançosos

“Não temais; permanecei firmes
e vereis

o que o Senhor fará hoje para vos salvar” (Ex 14,13)


 

“A Esperança não murcha, ela não cansa, 

Também como ela não sucumbe a Crença. 

Vão-se sonhos nas asas da Descrença, 

Voltam sonhos nas asas da Esperança.”

(Augusto dos Anjos)


 

Perder a esperança! Talvez essa tenha sido a frase que mais escutei nesses dias, seja por nossa situação política, seja por vários outros motivos. Até mesmo eu me peguei dizendo e pensando isso! Essa frase parece uma epidemia e se alastra sem nenhum aviso da OMS. Mas a nossa fé luta contra toda desesperança e tenta dar alguns remos para nos guiar nessa forte correnteza.


Ao olharmos a bíblia, vemos que várias personagens também se depararam com momentos em que era certo o fim do caminho, e as razões são várias: uma injustiça, um desânimo, uma morte, uma tragédia etc. Gosto muito de ler a bíblia não como histórias que aconteceram há milênios, mas como relatos da vida de muitos personagens que, hoje, ganham espírito e corpo nas minhas experiências mais profundas. O grito de Agar no deserto é o meu. A luta de Jó é a minha. Davi que manda matar seu amigo para casar-se com sua esposa sou eu.  As murmurações do povo no deserto muitas vezes são o meu pão de cada dia.


Contudo, o que aos nossos olhos pode parecer o fim, quando Deus entra em cena, converte-se em uma nova realidade. Agar encontra água para Ismael. Jó encontra um sentido para a sua luta. Davi cai na real e retoma seu caminho de fidelidade. O povo encontra forças e caminha até a Terra Prometida... É hábito nosso abaixar a cabeça e jogar tudo para o alto. É hábito de Deus levantar a nossa cabeça e encontrar caminhos novos. Na encíclica Deus caritas est, n.1, Bento XVI nos lembra que o encontro com Jesus não é uma ideologia, um pensamento ou uma energia positiva, mas um encontro com uma pessoa que nos abre novos horizontes. Jesus dá à nossa vida um novo horizonte!


Não consigo conceber um cristão sem esperança. Consigo entender todos os motivos que o levam a essa situação, mas não posso aceitar que ele tenha perdido justamente a bússola da vida, o que é mais característica da vida cristã: a esperança. Nossos cenários políticos e econômicos são difíceis; os problemas nacionais ganharam extensão, tornaram-se gigantes. Nossos relacionamentos estão difíceis; entender o outro em tempos de mudança é tarefa hercúlea e ainda mais aceita-lo como ele é ! Até mesmo conviver conosco mesmos não está sendo tarefa fácil; nós andamos mesmo muito complicados, pressionados, estressados, fadigados! Mas não percamos a esperança! Abramos os olhos e vejamos o que o Senhor fará hoje para nos salvar.


Na desculpa de viver a esperança cristã, podemos correr o risco de cruzar os braços e querer que Deus faça tudo. Não é isso e não pode ser isso! Estamos num cenário em que várias pessoas fazem denúncias, mas não têm esperança de que algo mude. Ora, denunciar sem esperança é chorar pelo leite derramado! Denunciemos, e com a medida que a gravidade do que é denunciado demanda, mas jamais sem esperança! Vem à mente o relato da ressurreição de Jesus no Evangelho de João: a comunidade conta a Tomé que Jesus ressuscitou, mas Tomé não acredita. Será que a comunidade de fato acreditou no que tinha visto? Qual era a esperança que havia em suas vozes ao fazer o anúncio a quem estava fora e não fez o encontro com o Ressuscitado? Se anunciamos sem esperança, como crerão em nós?


Estamos como os discípulos que remam e se fatigam na luta contra a tempestade forte (Mc 6,47-51). Ao verem Jesus, gritam, apavoram-se... Mas a voz da tempestade não é forte o bastante para emudecer a voz de Jesus, que diz: “Tende confiança. Sou eu. Não tenhais medo” (Mc 6,50). É bem verdade que há uma tempestade dentro de nós, na qual nos fatigamos, gritamos, nos apavoramos. É tanto esforço para não afundar que nem sequer escutamos a voz que nos impele à confiança, que nos interpela a não perder a esperança.  Mas, lembremo-nos: para nós cristãos, ainda que a tempestade seja forte, ela não pode abafar a voz do nosso Deus, que insiste em converter o nosso olhar para enxergar em cada fim um novo começo.





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