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140. Amor iluminado

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20.06.2017 | 6 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
140. Amor iluminado

(Para meus amigos Diego Lelis e Abdias Júnior,
com quem tenho aprendido amar e perdoar)


“Quantas vezes devo perdoar meu irmão

quando ele pecar contra mim? Sete vezes?”
(Mt 18,21-22)


 

“Um joelho ralado

dói bem menos

que um coração partido”


(Kell Smith)


 

Sempre me deixou encucada a atitude de Jesus de perdoar continuamente. Por todo canto onde andava, o Mestre de Nazaré acolhia, amava e perdoa. Seu perdão dava às pessoas o direito de recomeçarem, de se refazerem, de se reinventarem. Ele perdoava e ensinava que o perdão vale a pena. No discurso comunitário do Evangelho de Mateus, Jesus ensina a Pedro que o perdão não pode ter limites: “Não sete vezes, mas setenta vezes sete” (Mt 18,21-22) se deve perdoar, disse Jesus àquele que o trairia, negando-o na hora em que mais precisava de uma presença amiga e de alguém para partilhar as dores da existência. Pedro acovardou-se, vacilou e, cheio de medo, negou o que tinha vivido com o Amigo de Nazaré. Pressionado, chegou a dizer: “Não o conheço!” (Mc 14,68). Pedro era um dos amigos com quem Jesus havia dividido segredos (“Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas chamei-vos amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos dei a conhecer” – Jo 15,15). Tem razão Zé Ramalho quando afirma na canção Sinônimos:  “quando a gente ama, não tem medo de contar nossos segredos”. O amor de Jesus por seus discípulos se manifestou na confiança que depositou neles, na entrega de sua vida, de seus segredos, de sua intimidade. Mas parece que o que era tão importante para Jesus era nada para o intempestivo pescador da Galileia. Quando menos se esperava, eis que Pedro não deu conta de se manter fiel à amizade, pois essa lhe parecia muito exigente.


Impressiona como, depois de experiência tão dolorosa (a negação da amizade de na hora mais crucial de sua vida), Jesus continue considerando Pedro um amigo com quem vale a pena dividir a existência, partilhar a vida, fazer comunhão. Na hora da negação, Jesus não disse sequer uma palavra amarga, nem uma repreensão saiu de seus lábios; só lançou sobre seu amigo covarde um olhar de amizade (cf. Lc 22,61).


Tudo parecia perdido para Pedro. Morto seu amigo na cruz não havia mais tempo para pedir perdão, não havia como consertar a situação: o leite estava derramado ou, como diz nossa gente, “Inês é morta”! Então, Pedro chorou amargamente. É que um coração partido dói muito mais que um joelho ralado. Dores de amor são as mais difíceis de serem administradas. O que fazer então? Desesperar como Judas e enforcar-se? Não. Pedro estava confiante no amor de Jesus e seguiu resoluto na companhia dos outros amigos do Nazareno


Impressiona a fineza de Jesus e sua delicadeza com os seus amigos. Nos relatos de aparição, o assunto da negação não aparece. Jesus não cobra nada de Pedro ou dos outros que também o abandonaram. Simplesmente lhes dá força e coragem para seguirem o caminho da fé; confia-lhes a missão de continuar seu trabalho mais precioso: a pregação da palavra. Depois de negado e traído pelos amigos, o Mestre de Nazaré continuou confiando sua vida a seus amigos: a existência precisava continuar sendo partilhada, as esperanças precisavam ser comunicadas, o amor precisava continuar fluindo... Jesus sabia que há muitos mistérios na vida em comunhão, pois as relações mais profundas passam pelas veias do coração e “coração não é tão simples como pensa”, canta a Banda Mais Bonita do Mundo. Daí a importância do perdão e a coragem de perdoar. Porque perdoar exige coragem, muita coragem, muita disposição; é coisa para gente forte, gente que sabe se reinventar...


Quando a gente é capaz de perdoar, de refazer o caminho apesar do desencanto experimentado, é sinal de que as coisas boas vividas juntas são bem maiores que a dor da decepção. Foi isso que aconteceu com Jesus e Pedro. Três anos de caminhada e intimidade não podiam ficar comprometidos por algumas horas finais, por alguns segundos de covardia. Era preciso fazer memória da vida partilhada, da confiança cultivada, do bem feito um ao outro, dos sonhos vividos juntos, das lágrimas derramadas na hora da dor, das esperanças alimentadas por aquela amizade... Então, como não perdoar e recomeçar a relação quebrada? Ou o amor, que antes parecia tão grande, no fundo era pequeno demais ou o coração, que era dito tão largo, havia experimentado uma estreiteza que o proibia de deixar o sangue do perdão fazê-lo pulsar.


É bonito ver como Jesus ressuscitado acolhe Pedro de novo como seu discípulo e amigo, sem cobranças, sem desconfianças, sem nada... Alguns dizem que o relato de João 21,15-18 é um acerto de contas entre Jesus e Pedro. As palavras  de Jesus, “Pedro, tu me amas?”, repetidas três vezes, seriam uma lavação de roupa suja entre os dois amigos galileus. Pode até ser. Mas ainda que Jesus cobre amor por três vezes para lembrar a tríplice negação petrina, os dois amigos encontraram no amor o remédio para superar a dor da negação. Pode ser que leve algum tempo para o coração ser curado, pois a memória insiste em recordar os dissabores, mostrando as cicatrizes que ficaram. Mas perdoar é sempre a melhor opção. Se é boa opção para todos, pois o coração que perdoa fica libertado e recupera a amizade ameaçada, mais ainda o é para os cristãos que, movidos pela força do Espírito, são inspirados a amar como Jesus amou. Como canta Ivan Lins, o amor sempre cura feridas. “O amor junta os pedaços, quando um coração se quebra, mesmo que seja de aço, mesmo que seja de pedra, fica tão cicatrizado, que ninguém diz que é colado. Foi assim que fez em mim; foi assim que fez em nós, esse amor iluminado”.





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