Evangelho DominicalVersículos Bíblicos
 
 
 
 
 

137. Protagonistas

Ler do Início
31.05.2017 | 6 minutos de leitura
Yuri Lamounier Mombrini Lira
Crônicas
137. Protagonistas

“Não descuides do dom

da graça de Deus que há em ti” (1Tm 4,14)



“Cada um de nós compõe a sua história

e cada ser em si
carrega o dom

de ser capaz
e ser feliz”
 

(Almir Sater)



Há algumas histórias que, por mais que passe o tempo, permanecem fascinando a humanidade. Talvez, porque temos necessidade de heróis. Todas as culturas têm suas narrativas míticas e, no Ocidente, é muito badalada a lenda do Rei Arthur e dos cavalheiros da Távola Redonda. Muitos filmes já foram feitos sobre essa história e, recentemente, mais uma superprodução chegou aos cinemas: Rei Arthur e a lenda da espada. Num filme repleto de ação e aventura, do início ao fim, com direito a efeitos especiais de tirar o fôlego do espectador, a lenda do rei inglês vem à tona novamente.


Sem querer tirar a surpresa de quem ainda pretende assistir o filme, é preciso fazer ao menos uma síntese da história. Eis o resumo da película: Na Inglaterra medieval, as cenas transcorrem unindo o real e o imaginário. Numa época carregada de magias, a lenda da espada Excalibur é a garantia do poderio do Rei contra as forças das trevas que ameaçam destruir o reino. Traído pelo irmão, que por inveja deseja assumir o trono, o rei tenta proteger sua prole e, vendo sua amada perder a vida, ele reúne forças para salvar o pequeno Arthur, que escapa da morte, mas fica ferido por traumas que o atormentam durante toda a trama. Depois de anos vivendo entre a plebe, educado entre prostitutas e lutadores, Arthur se confronta com a famosa espada que nenhum homem havia conseguido retirar da pedra na qual ficou encravada, desde o falecimento do pai. Já adulto, Arthur descobre ser herdeiro de um poder que perpassou gerações; é capaz de empunhar a espada e, na companhia de leais seguidores da magia, afronta o poderio maléfico do tio que oprime o seu reino.


O que me chamou atenção no filme não foi a superprodução, com seus exageros, cenas apocalípticas, mas, o modo como no filme é abordado, o processo de subjetivação do herói, na construção de sua identidade.


Arthur fugia de si mesmo, de sua missão. De forma enigmática, alguém lhe diz: “Você pode até fugir da espada, mas a espada não foge de você”. O personagem vive um drama que é inerente ao ser humano; cada um de nós precisa viver um despertar da própria consciência. Aceitar! Artur não se reconhece como rei, apesar de as pessoas chamarem-no assim. Será preciso um árduo e fatigoso trabalho de identificação, de redescoberta de si mesmo.


E eis que Arthur fará uma viagem para o interior de si mesmo, num lugar chamado Vale das Sombras. Ali precisará vencer a si próprio, seus instintos, seu ego; será preciso domar-se a si mesmo. Ele vive uma aventura única, a maior de todas as batalhas, na qual precisará aprender a viver em harmonia com suas luzes e sombras. Usando uma linguagem filosófica, como escreveu Kant, será preciso sair da comodidade da menoridade para a autenticidade da maioridade. Tornar-se adulto, assumir-se como sujeito de sua vida, tomar as rédeas de sua história, não se deixar levar pelo que os outros dizem, mas agir como autor e protagonista da própria história.


A tarefa que Artur realiza no filme não é alheia a todo ser humano. Empreendemos essa preciosa jornada à procura de nós mesmos durante toda nossa vida. Tal tarefa só nós podemos fazer por nós mesmos. Ninguém pode executá-la em nosso lugar. É uma tarefa pessoal, intransferível... Como disse o Papa Francisco, “somos uma missão nessa terra e para isso estamos nesse mundo. É preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta missão”. Cumprir com autenticidade nossa missão neste mundo requer inteireza, personalidade afirmada, autenticidade, liberdade de ser.


Apesar da beleza da tarefa a que Artur se dispõe a realizar, construir sua própria identidade, o filme não escapa a certo fatalismo, aquela visão determinista que entende o indivíduo como predestinado a algo do qual não pode escapar. A doutrina da predestinação está fortemente enraizada em nossa cultura. Segundo esse pensamento, o ser humano está eternamente fadado a cumprir uma sina que lhe é imposta, fato que tira o fascínio da existência, pois a vida seria como um teatro: tudo antecipadamente previsto num roteiro escrito, tudo pré-determinado. Apesar de essa crença conseguir muitos adeptos, sabemos de sua inconsistência. Certamente há muita decisão que escapa à nossa liberdade, já nos é dada, mas nossos caminhos se delineiam à medida que vamos assumindo nossa história; construímos nossa história a partir das escolhas que fazemos. Tudo depende da consciência que temos. Podemos nos superar, nos surpreender.


Se não estamos predestinados a uma tarefa específica, como então descobrir os caminhos de nossa existência, ou ainda, como nos tornaremos autores de nossa própria história? “Cada um de nós compõe a sua história e cada ser em si carrega o dom de ser capaz e ser feliz”, assim poetizou Almir Sater na canção Tocando em frente. Cada um traz consigo potencialidades a serem descobertas e buriladas ao longo da existência. Depende de cada um... Ser sujeito de sua existência tornou-se a grande tarefa do ser humano pós-moderno, seu maior desafio. Cada um de nós precisa se descobrir e se afirmar como protagonista da própria história. Não podemos ser espectadores de nossa vida. É preciso fazer acontecer, tomar atitude.


Embora, ao longo do caminho, possamos contar com a ajuda de alguns companheiros de jornada, cada um de nós é desafiado a construir sua história. No caso do filme, o Rei Arthur contou com a ajuda da magia. Nós, ao contrário, não teremos ajuda de artifícios mágicos, mas contamos com presenças transformadoras que nos ajudam a afirmar nossa identidade, nos servem de espelho para nos mostrar quem somos.


No intenso trabalho de afirmação da identidade, a fé pode ajudar muito. Alicerçado no amor de Deus, o indivíduo encontra energias para edificar a construção de sua vida, para tecer para si uma vida não fútil, cheia de sentido. O encontro com o Deus da vida, na pessoa de seu Filho Jesus, revela as incongruências da vida e desafia a ser mais. Uma pessoa que de fato deixou sua vida ser referenciada pelo Homem de Nazaré não admite viver na exterioridade, não admite viver sem um trabalho sério de encontro consigo e sua verdade mais íntima.





PUBLICIDADE
  •  
  •  
  •  
  •  
  •