136. A fome nossa de cada dia


“Bem aventurados,
vós, porque tendes fome” (Lc6,21).
“Não quero a faca
nem o queijo,
eu quero a fome”
(Adélia Prado)
Geralmente há em todas as cidades alguém que é tido como louco e minha cidade também tem seus “loucos”... Lembro-me de um senhor, de cabelos brancos conhecido como Brás Cigano... Com sua bicicleta vermelha, vagava pela cidade, acompanhando por alguns cachorros – certamente discípulos seus.
A sina do Brás Cigano era empurrar sua bicicleta pela cidade afora enquanto gritava em alto e bom som, com sua voz grave e rouca: “O povo dessa cidade tá passando fome! O povo dessa cidade tá passando fome...” E, todos os dias, ele repetia essa frase à exaustão. Naquela época, eu ainda criança, morria de rir ao ver essa cena. Hoje, porém, ao lembrar disso fico pensando na fome e em todos os que vivem nessa situação dramática de não ter o que comer.
A fome é uma coisa triste e, diante dela, perdemos a lucidez da razão. Ficamos primários, devoramos, atacamos, para nos defender do que nos devora. A fome vulnerabiliza a gente. Vejamos o caso de Esaú. Ele trocou o direito de primogenitura por um prato de lentilhas: “De que me vale esse direito à primogenitura se estou morto de fome?” (Gn 25,32) – esbravejou Esaú com seu irmão Jacó. Assim, Esaú dispôs impensadamente de algo valioso por uma bagatela: a primogenitura por um prato de sopa.
Também na trajetória pelo deserto aconteceu o mesmo. Tomado por um sentimento de insegurança, o povo de Israel começou a murmurar contra Moisés: “Quem nos dará carne para comer? Estamos lembrados dos peixes que comíamos de graça no Egito, dos pepinos, melões, cebolas e alhos! Agora estamos definhando à mingua de tudo. Não vemos outra coisa senão maná” (Nm 11,4-6). A fome faz cada coisa! Faz até esquecer o sofrimento passado da escravidão e desdenhar a liberdade conquistada.
Sem querer tirar a gravidade da fome, é claro, é preciso lembrar, porém, que Jesus também disse: “Nem só de pão vive o homem” (Mt 4,4). Ao dizer isso, o Mestre de Nazaré nos faz perceber que há no ser humano outras fomes, além da fome de comida: a fome de afeto, carinho, esperança, de uma palavra amiga, de um gesto e a maior de todas as fomes, a fome de Deus! Há tantos subnutridos de carinho, anêmicos de fraternidade, famintos de esperança, desejosos de se alimentar de Deus, de fazer a experiência do amor, de preencher o vazio que há no mais íntimo de cada coração.
Temos fome; muitas fomes! Adélia Prado poetizou: “Não quero a faca nem o queijo, eu quero a fome”. De que adianta ter a faca e o queijo na mão, se não temos o desejo de comer? Como diz o nosso povo: “É preciso juntar a fome com a vontade de comer”. É preciso ir em busca do que desejamos. A fome tem então um lado positivo. Ela representa o desejo, a busca, a procura de algo. Ela denuncia a carência, a falta, a ausência daquilo que nos sustenta. Não é à toa que Jesus disse que bem-aventurado é aquele que tem fome, porque será saciado (cf. Lc 6,21). Jesus não quer que ninguém fique faminto, é claro. Não há bem-aventurança ou felicidade alguma na privação do pão ou de qualquer outra coisa que sustente nossa vida na sua plenitude. Mas a fome é bem-vinda, porque é sinal de busca, ainda mais se for de justiça, como afirma Mateus (cf. Mt5,6).
Assim, seria loucura pedir a Deus não só o pão, mas também a fome? Será que podemos rezar assim: “A fome nossa de cada dia nos dai hoje, Senhor”? Rezemos para que não só o Senhor nos sustente com o pão de cada dia, mas que não nos falte a fome que sinaliza que estamos vivos.
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