119. A linguagem do amor


“Se eu não tivesse amor,
eu seria como um címbalo que retine” (1Cor13,1)
“Não sabem que o amor fala por si?
Que os olhos dos que amam são bem mais
Acesos, eloquentes e jamais
Se cansam de brilhar e de exibirem-se?"
(Antônio Fabiano)
O amor tem sido cantado em versos e prosas. Os amantes têm sido foco da atenção de muitos. Tudo isso porque o amor é escandaloso e atrai para si os olhares. Normalmente, o ele ocupa espaços e se mostra, não passando despercebido aos olhos atentos. Como afirma o poeta, os olhos dos amantes “são bem mais acesos, eloquentes e jamais se cansam de brilhar”. Por causa disso, os pais percebem quando sua filha adolescente está encantada de amores por um companheiro. E não fica de todo escondido o olhar interessado dos amantes clandestinos. O amor se denuncia. Ele se mostra nos gestos: nos olhos acesos e brilhantes, nas mãos que se roçam, nos lábios que se inflamam, na epiderme que reconhece o toque do amado. O amor tem linguagem própria e se comunica de muitas formas
Presenciei outro dia uma cena curiosa. Na pracinha por onde fazia uma caminhada, dois moradores de rua demonstravam todo amor que tinham um pelo outro. Ela, deitada no banco da praça. Ele, sentado na calçada aos seus pés. Os dois faziam piquenique e se curtiam sem nenhum escrúpulo. Ele lhe servia uvas na boca, como nos filmes românticos de Hollywood. Ela sorria feliz e lhe acariciava os cabelos. Estava estampado em seus olhos, em seus gestos, no cuidado de um com o outro, o amor que se devotavam. Suas roupas eram rasgadas; seus rostos eram sofridos; seus trajes estavam sujos; suas mochilas esfarrapadas, mas eles sorriam felizes e havia um encantamento curioso naquela cena. É bom perceber a comunicação do amor. Não sou do tipo romântica, apesar de acreditar no amor, mas pensei: “Parece-me que, para ser feliz, não é preciso muita coisa. Basta ser amado. Basta que alguém nos comunique o seu amor”.
Quando termina um ano e outro recomeça, normalmente dedicamos esforços a fazer projetos e planos para o novo ano. Pensamos: “Vamos amar mais, sorrir mais, descansar mais, gastar mais tempo com aqueles que amamos e com as coisas que nos dão prazer”. No decorrer do ano, os bons propósitos costumam ficar pelo caminho e, como peregrino distraído, deixamos as melhores bagagens para trás. Um viandante desatento perde sua mochila e lamenta que a sua condução partiu e seus pertences ficaram perdidos no caminho. Assim também não é incomum encontrar quem lamente um amor perdido na estrada da vida. Faltou coragem para vivê-lo. Faltou força para comunicá-lo. Faltou tempo para curti-lo. E, como um viageiro, quando perdemos a bagagem recordamos dos valores que nela havia e ficamos a desejar o tesouro perdido. É quando morre aquele que amamos que lamentamos não ter amado bastante. Morre o pai e o filho diz: “Eu não aproveitei sua companhia. Será que ele sabia que eu o amava?”. Morre a esposa e o marido pensa: “Não fiz tudo que podia. Não lhe disse o quanto a amava. Não viajamos para os lugares que ela sonhou. Não fui presença como ela esperava”. Morre o filho e dizem os pais: “Quanto tempo gastamos com o trabalho? Não o vimos crescer. Não estivemos com ele nos momentos mais importantes! Nosso amor ficou represado e sua comunicação não foi eficiente. Tememos que ele tenha morrido sem saber o quanto era importante para nós!”.
Como o amor tem uma linguagem própria, comunicar o amor não é mesmo coisa fácil. Não basta dizer “eu te amo!”. A gente se trava, se prende, se reprime e tem medo de dizer que ama. Não é o caso de apenas dizer que ama, mas de demonstrar esse amor, de deixá-lo fluir, de dizer com gestos concretos que o amado não está só. E também de saber ouvir a comunicação amorosa e muitas vezes silenciosa do outro. Nem todo amor é dito expressamente: “Amo você”. Na ausência de palavras, mas na presença da amizade companheira, o amor se diz. Ele é comunicado muitas vezes pelas vias silenciosas do coração e nem sempre se faz audível no tom grave ou agudo das cordas vocais daquele que ama. Diz a canção popular:“Nosso ouvido quer escutar o que o coração tem pra falar. E os nossos olhos também querem ver todo o respeito que há dentro de você. Fonte secreta de nossa alma precisa brotar, precisar correr. Todo ser humano sonha em expressar o que o coração tem pra falar” (Nayah).
Enquanto é possível comunicar o amor, façamo-lo. Não o represemos! Não neguemos àquele que amamos o direito de saber que ele é amado. Sem o amor, somos como um sino que bate, mas não comunica nada, disse o apóstolo Paulo no seu hino ao amor. Deixemos o amor se dizer. O amor, por si mesmo, já é comunicação. É saída de si em direção ao outro. Por que não deixar que ele se diga? Para o ano de 2017, façamos um propósito de amar mais, não o amor romântico e ideal dos filmes e das novelas. Mas o amor concreto e efetivo, aquele amor afetivo que se faz presença significativa, dando um colorido todo especial à vida do amado. O amor dá segurança, dá força, dá ânimo para viver. Que ao final do ano de 2017, não precisemos cantar com os Titãs: “devia ter amado mais...”.
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