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108. Nada feito

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18.10.2016 | 4 minutos de leitura
Solange Maria do Carmo
Crônicas
108. Nada feito

Em paz me deito e logo adormeço,

pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança” (Sl 4,8)



“Tudo dito,
nada feito,
fito e deito"

(Paulo Leminsk)


 


Tenho a impressão de que a gente dorme cada vez menos. A vida se agita; os afazeres são muitos; a velocidade com que os acontecimentos se desenrolam é cada vez mais acelerada; os compromissos se amontoam e a noite parece curta. Deitamos mais tarde; a luz elétrica nos possibilitou essa façanha, aumentando nossa jornada de trabalho que era finda com o ocaso. E ainda levantamos com as galinhas, como dizem na roça. Bom, isso vale para os pobres mortais, é claro, porque os milionários trocam a noite pelo dia, levantando-se de seus leitos de marfim quando o dia começa a se despedir.


Como se não bastasse a correria do dia e sua jornada por vezes interminável, quando conseguimos botar a cabeça no travesseiro, nem sempre o irmão sono vem nos acalentar. A agitação do dia o afugentou. A adrenalina corre solta nas veias; estamos conectados numa tensão de 220w, como costuma dizer nossa gente. Aí vem a torturadora da noite, a insônia, aquela algoz que não perdoa nem mais santos.


Fernando pessoa, sob o pseudônimo de Álvaro de Campos, compartilhou sua experiência torturante. É tão cruel a sua descrição que causa horrores antecipados naqueles que são vítimas da insônia.


Espera-me uma insônia da largura dos astros,
um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.


Quando é assim, a noite amiga se transforma em vilã. Ela que deveria nos afagar e acalentar, nos tortura, nos maltrata, nos arranca o resto de paz que sobrou da luta do dia. O que fazer, meu Deus? Haja remédio controlado para acalmar os pensamentos, para desligar os afetos – ou desafetos –, para entorpecer a alma. Ainda bem que os temos, mas melhor seria se não precisássemos dele. Quando nosso sono se altera, estou certa que já passou da hora de repensar a vida.


Quando eu era bem mais jovem, tinha uma capacidade impressionante de dormir em segundos. Morei numa comunidade fraterna e, não poucas vezes, deixei irmãos e irmãs falando sozinhos. Parecia um truque de mágica. Bastava encostar a cabeça para ser abraçada por Morfeu, o deus do sono, que generosamente me reconstituía as forças para o dia seguinte, quando eu acordava novinha em folha. “Tenho saudades daquele tempo...”, diria Pe. Zezinho.


De novo Leminsk me arrancou de mim mesma com estas palavras. “Tudo dito, nada feito, fito e deito”. Quando chega a irmã noite, com seu véu da escuridão, melhor não prolongar o trabalho, muito menos o sofrimento. O ciclo da vida avisa que é hora de repousar, de deixar os neurônios se recomporem, de permitir aos músculos o relaxamento que lhes é devido, para que não faltem forças para a jornada do dia seguinte.


Não estou fazendo apologia dos tempos antigos – nem poderia! –, nem estou querendo acabar com a luz elétrica, com a internet etc. Só estou fazendo a defesa do digno repouso. Bendito seja Deus pela noite que afaga, pela escuridão que provoca o hormônio do sono, pelo silêncio que o favorece! “Em paz me deito e logo adormeço”, disse o salmista. Quem dera pudéssemos dizer o mesmo! Quem se sabe preso nas garras da insônia e passa a noite atormentado por seus fantasmas sabe o valor de uma boa noite de sono.





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