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87. Depressão pós dia 8

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10.03.2021 | 2 minutos de leitura
Tânia da Silva Mayer
Diversos
87. Depressão pós dia 8
Cooptado pelo sistema patriarcal misógino machista, o dia oito de março se tornou um dos dias mais cansativos do ano. Os aplicativos de mensagem são abarrotados de felicitações pela ocasião de data tão especial. Pululam vídeos emocionados, comoventes, nas redes sociais ressaltando a importância e o papel das mulheres no mundo: são fortes, guerreiras, amigas, elegantes, entre muitos outros adjetivos que não caberiam neste artigo. Cada notificação nesse dia vem carregada de muitas intencionalidades e intenções que procuram demarcar exatamente a função social da mulher. E como diz o ditado, \"o inferno está cheio de boas intenções\".
E o inferno é o aqui e agora das nossas existências. Porque, passado o dia oito, a realidade se revela cinza novamente para todas as mulheres, tanto para as que já criaram uma consciência feminista quanto para as que ainda estão presas nas cavernas do patriarcalismo. Os mesmos amigos que nos felicitaram no dia anterior são os que agora continuarão a nos olhar com diferença subjugada. Nossos corpos continuam tomados como objeto de prazer. Nossas emoções e sensibilidade continuam a ser taxadas como histeria. Nossa criatividade e inventividade continuam a ser ignoradas nos âmbitos da técnica e da ciência. Nossas ideias continuam a ser constantemente roubadas por outros colegas de trabalho, colegas que nos felicitaram com mensagens e flores. E, além disso, a palavra continua a ser silenciada em nossas bocas, porque continuam nos negando o direito de falar por nós mesmas sobre o que compreendemos do mundo, da história, da fé e da vida.
Por essas razões, os dias anteriores e posteriores ao oito de março são de profunda depressão. Trata-se mesmo do abaixamento de nível como os sistemas compreendem nossas existências: fomos feitas para a violência, para sofrermos violências. E a raiz de todas elas consiste na negação de que sejamos pessoas com capacidade e liberdade de ser pessoa de direitos e deveres como qualquer outra de gênero masculino. E essa raiz que vai até as nossas ancestrais que nos honraram com sua luta segue sendo fomentada pelos mesmos atores e atrizes que procuram impedir, pela finesse das felicitações, das mensagens e flores, que a conversão das consciências aconteça promovendo uma revolução nas relações humanas na medida da equidade.
Mas não se enganem, não se trata aqui da proposição, que agradaria sobremaneira o sistema patriarcal, de impor o fim da celebração da data do Dia Internacional da Mulher. Celebrar é destacar o imprescindível. Por essa razão, o dia que passou e que virá em outros momentos deve ser de celebração da luta que realizamos diuturnamente através dos séculos e séculos, luta de não sermos definidas por aqueles que nos temem e odeiam, luta de transitarmos com nossos corpos, luta por construir o mundo a partir, também, de nossos projetos e ideias.
Nessa esteira, é fundamental o endurecimento com relação a essas práticas de cooptação de sentido fomentadas por amigas e amigos, conhecidos e desconhecidos, por uma sociedade, constituída por indivíduos e instituições, laicas ou religiosas, que ainda não dá conta do que somos capazes de ser e fazer, por nós e para os outros na justa medida de um mundo de liberdades e igualdades. Só a partir da teimosia de não permitir que nos digam e ensinem quem somos ou devemos ser é que seremos verdadeiramente as arquitetas do futuro de uma humanidade que precisa muito compreender as diversidades humanas como uma força para a perpetuação criativa da nossa espécie.

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