4. Canta, coração... Sonha, coração!


Na tradição hebraica o coração possui uma simbologia especial. Para os judeus o coração é o centro da inteligência, das emoções e da vontade. Assim sendo, é no coração que ficam guardadas as recordações; é do coração que brotam as emoções e é lá também que o saber humano está sediado. Uma das coisas que nossa cultura herdou do povo judeu foi essa simbologia de associar o coração como o lugar onde se guardam as coisas marcantes que acontecem ao longo de nossa vida e que nos projetam para a busca dos nossos sonhos e da verdadeira felicidade, nosso grande tesouro.
Num trecho do belíssimo Sermão da Montanha, o mestre Jesus de Nazaré diz aos seus discípulos:
“Não ajunteis tesouros aqui na terra, onde a traça e a ferrugem destroem e os ladrões assaltam e roubam. Ao contrário, ajuntai para vós tesouros no céu, onde a traça e a ferrugem não destroem, nem os ladrões assaltam e roubam. Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração.” (Mateus 6, 19-21)
Meditando sobre a grandeza do coração, me lembrei de “Borbulhas de amor”, canção originalmente espanhola que teve sua versão em português composta pelo poeta Ferreira Gullar, tornando-se famosa pela interpretação marcante do cantor e compositor cearense Raimundo Fagner.
Sempre gostei muito dessa música, mas ainda não tinha parado para refletir na beleza poética existente em seus versos. Mas, o que me deixou encantado não foi a declaração apaixonada do amado pela amante, dizendo que desejara ser um peixe para enfeitar de corais sua cintura e, inebriado pela envolvente luz da lua, pudesse com ela e junto dela saciar a loucura de amar...
O que me fascinou foram estes versos: “Canta, coração, que esta alma necessita de ilusão. Sonha, coração, não te enchas de amargura.” Esses versos ressoaram forte em meus ouvidos e de certa forma me inquietaram, levando-me a pensar na importância dos sonhos para a vida.
O ser humano sempre teve a necessidade de sonhar, aliás, somos os únicos seres capazes de ter sonhos e, sem dúvida, são os sonhos que nos impulsionam rumo aos nossos objetivos. Parafraseando Sócrates, afirmo que “uma vida sem sonhos não é digna de ser vivida”, pois a pessoa que vive sem sonhos, passa pela vida sem saber o que é viver.
Sem sonhos a existência se torna insossa e vazia. Sem sonhos a vida perde os horizontes. Sem horizontes perdemos o desejo de ultrapassar nossos limites. Sem limites deixamos de ser aventureiros e, portanto, deixamos de ser ousados.
A alma humana tem sede de sonhos, ela necessita de se alimentar de ilusão. A ausência de sonhos deixa o coração amargurado.
Sonhar revela nosso anseio pelo infinito. Os sonhos magicamente fazem com que o impossível se torne possível e nos impulsionam a alçar voos cada vez mais altos e a “navegar por mares nunca antes navegados.” Os sonhos nos enchem de audácia e nos fazem exclamar com Mário Quintana:
Se as estrelas são inatingíveis, ora Isto não é motivo para não querê-las Que tristes os caminhos se não fora A mágica presença das estrelas!
Alimentados por nossos sonhos, prossigamos cantando a canção da vida e não deixemos nosso coração se amargurar. Ousemos sonhar! Ousemos viver!