154. Sede fecundos


“Então Deus os abençoou, declarando:
'Sede fecundos, multiplicai-vos!'” (Gn 1,22)
“Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra propícia estação
E fecundar o chão”
(Milton Nascimento e Chico Buarque)
No Antigo Testamento, a fecundidade é exaltada como um grande valor: sinal da aprovação de Deus. Possuir uma grande prole atestava a garantia da bênção de Deus sobre o varão. Quanto mais fecundo, mais abençoado. O povo do antigo Israel levou o “sede fecundos” a sério e, quando uma mulher não conseguia engravidar, era motivo de grande tristeza. É o caso de Sara, esposa de Abrão; de Raquel, esposa de Jacó, e de tantas outras mulheres que choraram a dor da infecundidade, acreditando serem amaldiçoadas por Deus.
A princípio, fazendo uma leitura superficial dos textos, pode-se pensar que a fecundidade está apenas no número de filhos, mas não é bem assim.
Por que era tão importante ter filhos? Além do aspecto prático da mão de obra de trabalho, estava o desejo de perpetuar-se na história. Tendo morrido os pais, os filhos garantiriam sua memória viva, relatando a sua justiça. A fecundidade dos pais tornava-se visível nos filhos que, admirando os caminhos que eles traçaram, seguiam seus passos. Verdadeiramente fecundo era aquele que havia ensinado aos seus filhos os caminhos do Senhor a serem trilhados. Foi o autor do Livro da Sabedoria quem melhor entendeu que a fecundidade não está no número de filhos, mas num nome que se mantém na história.
A fecundidade tem raízes então no bem que se faz, na justiça que se vive, no amor que se espalha. “Sede fecundos” não é ordem que o autor do Livro dos Gênesis credita somente ao homem e à mulher, aos casais que fecundamente se reproduzem e enchem de filhos o mundo, mas à toda a criação.
Quando o ipê floresce e, logo em seguida, tem suas sementes espalhadas pelo vento, está cumprindo a ordem “sede fecundos”.
Quando o deserto esconde por anos as sementes em suas calorosas entranhas e depois floresce com as primeiras chuvas, está cumprindo o “sede fecundos”.
Quando as chuvas fazem subir os leitos dos rios fertilizando as margens, estão cumprindo a ordem “sede fecundos’’.
Quando as formigas devoram as roseiras e carregam as folhas para fazer ninho para sua rainha, estão cumprindo a ordem “sede fecundos”.
Quando as estrelas iluminam a noite escura e tornam-se guias para os andarilhos errantes, estão cumprindo a ordem “sede fecundos”.
Quando as arvores perdem suas folhas e não se entristecem porque serão realimentadas pela matéria orgânica que se forma sob suas copas, estão cumprindo a ordem “sede fecundos”.
Quando a cana é triturada e do seu bagaço é extraída a doçura do açúcar, está cumprindo a ordem “sede fecundos”.
Quando a uva é pisada e dela é extraído um saboroso vinho, está cumprindo a ordem “sede fecundos”.
Quando ir. Dulce dos pobres se perdia em esforços devolvendo a vida às crianças abandonadas, estava cumprindo a ordem “sede fecundos”.
Quando duas pessoas se amam e se cuidam testemunhado que o amor vale a pena, estão cumprindo a ordem “sede fecundo”.
Fecundidade, na verdade, tem pouco a ver com multiplicação da própria espécie, mas tem a ver com a eternização do belo, com proliferação do bem e com a continuidade da vida.
O humano fecundo não está intrinsecamente ligado à união do óvulo com o espermatozoide, mas à união de vidas que são capazes de gerar mais vida ainda.
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